O mundo procura uma alternativa sustentável para o capitalismo há não sei quantos anos e não desconfia de que essa alternativa está aqui no quarto, despretensiosamente largada em cima da minha cama. Agora nossa cama. A única alternativa possível ao capitalismo é nosso cobertor. Uma mantinha azul e felpuda capaz de derrubar muros, fronteiras, cadeados e preconceitos. Debaixo dela, um território realmente neutro e laico, onde não existem posses. Em suas fronteiras, tudo está sujeito a uma constituição própria que abole em cláusula pétrea todo e qualquer pronome possessivo. Lá debaixo, aqui debaixo, não existe meu braço, suas pernas, suas coxas, minhas costas, é tudo nosso e ao mesmo tempo de ninguém.
O pau, que a vida inteira chamei de meu, deixa de me pertencer. Quando entra no seu corpo, que também não é mais seu, não me permite saber quem é que tá comendo quem. Sinceramente, não me importa. Não nos importa. Sem posse não há gênero, número ou grau. Debaixo dessa manta não há política, gramática, aritmética ou filosofia. Lá debaixo, aqui debaixo, somos um único ser. Um monstro monóico.
3 comentários:
WoW!
Sábias palavras...
absorvamo-nos.
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