Por Eduardo Ferreira Moura

28.1.12

Loucos Por Futebol

Trabalhar em uma instituição psiquiátrica nos faz experimentar sensações únicas. Nós, auto-proclamados normais, muitas vezes experimentamos, inclusive, a sensação de sermos os únicos doidos lá dentro.
Durante a Copa do Mundo, todos os brasileiros param para assistir à tal pátria de chuteiras. Todos mesmo, inclusive os que dizem que não param. Somos obrigados a parar, aliás, porque o restante do país não funciona. Param até os que moram em instituições psiquiátricas.
Em 1986 nós estagnamos diante da TV ainda mais do que de costume, se é que isso é possível. Pairava no ar um clima de "já ganhamos", uma vez que era a segunda Copa no México e nós ganhamos a primeira com vasta superioridade em 1970 - como se isso quisesse dizer alguma coisa. Mas além disso, na Copa de 1982 sofremos uma eliminação deveras injusta, levando em conta o futebol apresentado e o time de 1986 era tão talentoso quando o de 1982, mas com uma zaga mais... Consistente.
No final do mês de Maio, comparei minhas escalas para o mês seguinte com a tabela da competição. Com felicidade, constatei que não estava incumbido de plantão em dia de jogo. Assim, poderia assistir às contendas no aconchego do lar e não teria que conter os destemperos dos internos diante dos desígnios da pelota.
Desígnios, sem dúvida, muito caprichosos. A seleção brasileira enfrentou, na primeira fase, a Espanha (1 x 0), a Argélia (1 x 0) e a Irlanda do Norte (3 x 0). Mais fácil do que dormir com Rivotril. No entanto, contra a Espanha, nossa vitória foi injusta. Isso porque o juiz da partida não notou que um chute do meia-direita espanhol, Michel, cruzou a linha do gol. Para o juiz, bem como para todos os brasileiros, bateu na trave, quicou e saiu. O hospício foi à loucura, segundo me contaram os colegas de profissão de plantão naquele dia. Mas foi gol, não resta dúvida.
Se aquele gol não fosse invalidado, ao invés de contarmos seis pontos ao final da primeira fase, contaríamos cinco, bem como os espanhóis. Então, haveria a chance de nos classificarmos em segundo lugar, não em primeiro, já que nessa copa as vitórias valiam dois pontos, empates valiam um ponto e derrotas não computavam ponto algum. Assim, ao invés de enfrentarmos a Polônia nas oitavas-de-final, teríamos enfrentado a Dinamarca. Ao invés de enfrentarmos a França nas quartas-de-final, no sábado, dia do meu plantão, teríamos enfrentado a Bélgica no lugar da Espanha, no domingo, dia seguinte ao meu plantão. Provavelmente, teríamos ganhado e continuado na competição. Hoje o Brasil poderia ser hexacampeão, não penta, caso aquele gol em favor da Espanha não tivesse sido garfado.
Mas nada disso aconteceu e nós enfrentamos a França no dia do meu plantão. Dane-se o hexacampeonato (e na época éramos apenas tri). Se me perguntassem, preferia ter paz no meu turno. Mas não foi assim que as coisas se sucederam. Os diretores do hospital colocaram uma TV de catorze polegadas no giro-visão que, por medida de segurança, é preso na parede quase junto ao teto, de quase quatro metros de altura. Assim, eu e o restante da equipe profissional (enfermeiros, médicos, psicólogos, porteiros etc.) assistimos ao Brasil e França junto do restante da equipe de loucos (Napoleões, Maradonas, ministros da justiça, reis de Portugal etc.) reunidos no pátio interno da instituição. Para prestigiar o futebol, era necessário olhar para o teto e apertar a vista, ou não veríamos nada.
Havia, no entanto, um interno que não quis se juntar a nós. Acompanhava as emoções do jogo através de um radinho de pilha, isolado em um canto do pátio interno. Seu nome era Valter Tartaruga. Quando em delírio, julgava-se uma tartaruga e comportava-se como tal. No entanto, nos hiatos entre os surtos, era uma pessoa dessas que a gente julga como normal. Como eu e você.
Na tela da TV, a bola estava no flanco direito do gramado, nos pés de Josimar - que já havia feito belos gols naquela competição. No entanto, o rádio de Valter Tartaruga berrava gol, agora no último volume. Todos nos voltamos para o canto do pátio em que ele estava. Valter correu na nossa direção, berrava um "gol", mas com muitas vogais e distribuía abraços e beijos até mesmo nos enfermeiros que menos gostava. Estávamos perplexos.
Então, passada a euforia do gol, Valter diminuiu o rádio, recolheu os abraços e voltou silenciosamente para a solidão de seu canto do pátio. Nós nos olhávamos como se estivéssemos doidos. A bola estava nos pés de Müller, na intermediária, marcado de perto por três. Até que, em meio ao silêncio, a voz de Osmar Santos se fez ouvir, anunciando um bom drible, toca para Júnior, toca para Careca.... Gol.
O manicômio ficou uma coisa de maluco, um alvoroço só. Os internos começaram a gritar em uníssono:
- Pelé! Pelé!
E o Careca mal chega a ser moreninho. Os Napoleões do hospício, ofendidíssimos, danaram de cantar La Marseillaise em um autêntico grammelot. Irromperam provocações entre eles e a corte portuguesa de internos, que contava com três Carlotas Joaquinas, um ilustre D. Sebastião e infinitas Marias I, a rainha louca.
Deu trabalho separar, mas a saída de bola restabeleceu a paz na instituição. Então, em meio ao silêncio restaurado, Valter Tartaruga encosta ao meu lado, olha para o rádio com descrença e diz:
- Teve outro gol e eles esqueceram de me avisar, é?
- Não foi outro gol, foi o delay.
Respondi. O Tartaruga me olhou por cima dos óculos e, resoluto, afirmou:
- O Deley do Fluminense? Foi nem convocado! Esse é o Careca! Eu, hein, parece doido! Claro que foi gol...
Pensei em explicar a ele, mas me pareceu loucura. Na minha realidade, o jogo terminou empatado e nós fomos eliminados nas cobranças de pênaltis. Na realidade dele, nós ganhamos da França por dois a um, com dois gols do Careca. Afinal, quem é o louco?


***

Se bateu nostalgia ou curiosidade, o gol do Careca está aqui. Salvo engano, foi aí que começou a sina do Brasil com a França em Copas do Mundo. Quem perdeu o pênalti que nos eliminou foi o finado Dr. Sócrates, homenageado em outro texto desse humilde blog.

0 comentários: