Por Eduardo Ferreira Moura

24.1.12

Cenouras

Texto escrito para a Revista Elis, assinado com o pseudônimo de Maria Regina Moraes.
***

- Você é destra ou canhota? Então, segura a cenoura com a mão direita e põe a mão esquerda em cima do ralador. Segura firme na cenoura, pega entre o meio dela e o topo. Também não precisa apertar, é só segurar firme. Agora fica aí, pra cima e pra baixo. Não faz com pressa pra não se cortar, mas também não faz devagar porque senão não vai ralar.
Tinha doze anos quando mamãe me disse essas sábias palavras. Dali em diante, passei a enfeitar minhas saladas de folhas também com cenoura ralada. Experimentei variações, com ralo grosso e ralo fino. Depois, notei que pepino e outras coisas poderiam ir ao ralador também e fui sofisticando as saladas cada vez mais.
Passaram-se, então, muitos anos. Casei e só bem depois tive a Marieta. Mamãe faleceu. Marieta cresceu. Arnaldo enfartou, mas não morreu. Marieta cresceu mais. O Brasil foi eliminado da Copa de noventa. Marieta começou a crescer de um jeito diferente, na cintura. Tenho certeza de que ela acha que não notamos. Arnaldo realmente não notou, mas eu... Eu sou mãe. Então, quando ela sentou aqui na namoradeira da sala para dizer que queria conversar comigo, já sabia bem do que se tratava. Fiz minha cara de cínica (mamãe que me ensinou também):
- Que foi, minha filha?
- Estou grávida.
Ela disse. E começou a chorar. A maternidade é a coisa mais linda do mundo. Só quem é mãe sabe disso. Não há fenômenos natural, social, físico, químico ou econômico que se compare com a maravilha que é gerar um ser dentro de um ser. Ainda assim, minha vontade naquele instante foi de dar com a cabeça da Marieta no console da sala. Ao invés disso:
- Marieta, minha filha... Mas como você foi...
Abracei a coitadinha da idiota da minha filha. Só quem é avó sabe como é.
- Quem é o pai, minha filha?
Ela, então, recompôs-se rapidamente.
- Claro que é o Ricardo!
Respondeu como que ofendida. Menos mal, ao menos ela tinha caráter. Namorava Ricardo e apenas ele há quase dois anos. Duas crianças. Duas crianças boas, excelentes, mas duas crianças. O pai do Ricardo tem uma padaria, Arnaldo é funcionário público. De fome a criança não morreria. Claro que eu ajudaria a cuidar enquanto os pais endireitavam a vida, buscando os próprios caminhos, mas ainda assim tínhamos um problema enorme nas mãos. No caso de Marieta, um problema de três quilos no ventre.
- Você já contou pra ele?
- Não.
Chorou mais. Choraria ainda mais quando fosse a hora de contar para o pai. Homem é bobo, sempre acha que as mulheres da própria família não fazem sexo. Pois saibam, nós fazemos, ou no mínimo fizemos. Marieta ainda faz.
- Você não sabe que tem que usar camisinha, minha filha?
Estava inconsolável, não conseguiu me responder, mas eu sabia que ela sabia. Não era hora de discursar sobre métodos anticoncepcionais. Havia um bebê ali e a preocupação deveria ser com ele. Expliquei-lhe que, por mais inconseqüente que tivesse sido sua atitude, aquele bebê deveria ser muito querido, agora que viria a ser uma realidade nas nossas vidas. Enxuguei as lágrimas do seu rosto, um rosto lindo, rosto de criança. Expliquei que gravidez é saúde, não havia porque chorar. Não adiantava chorar. Era questão de pensar no futuro dali em diante. O futuro começaria naquela noite, quando Arnaldo chegasse do trabalho. Ela não queria dar a notícia, evidentemente. Morria de medo da reação do pai. Assumi as rédeas da situação e soltei a notícia sem rodeios, como deve ser:
- Marieta está grávida.
Fiz questão de que ela estivesse presente, para aprender através do meu exemplo como se deve ser mãe, mediando conflitos irremediáveis. Arnaldo tentou voar em seu pescoço, mas interrompi seu showzinho:
- Pode parar de palhaçada. Já conversei com ela, foi um acidente. Agora a gente precisa pensar em como vai ser a vida desse bebê. É seu neto.
Ele deu alguns berros, mas não passou disso. Uma tempestade nos copos da nossa cristaleira. No dia seguinte, fomos à casa de Ricardo ter uma conversa franca com a família inteira reunida. Eles escutaram com surpresa. Olharam feio para Ricardo, mas não ousaram levantar a voz para Marieta. Ao contrário, estavam dispostos a aceitar aquela situação como adultos esclarecidos. Ronaldo, pai do Ricardo, ficou de colocar o menino para trabalhar na padaria, coisa que já devia ter feito há muito tempo. Lembrei-me, aliás, que na família do Ricardo eles têm essa mania de nome com R. Experimentei certa peninha do meu neto.
Fomos tratar, então, do pré-natal, que não durou quatro meses. A implantação do feto foi ectópica, uma gravidez complicadíssima. Inicialmente, sofremos todos porque ali havia uma criança. Depois, sofremos todos porque ali não havia mais uma criança. Perder um filho é muito mais difícil do que ter um filho. Chorei por duas semanas, todas as noites, depois que todos já dormiam. Não só pelo meu neto, mas também por Marieta. Não ser mãe também é padecer, só que fora do paraíso.
Ricardo e Marieta chegaram a terminar o namoro. Juravam de pés juntos que não tinha a ver com o bebê, mas tinha. Sempre tem. Com o tempo, reconciliaram-se e a vida foi voltando ao normal aos poucos.
Um dia, estava na cozinha preparando o almoço e me ocorreu de gritar à Marieta, que prontamente correu até a cozinha.
- Filha, eu tava pensando aqui, como você engravidou? Vocês não usavam camisinha?
Marieta fez uma careta, não esperava esse assunto. Andou em círculos na cozinha, até que disse:
- A gente tava sem no dia. Não sabia o que fazer.
Soltei um suspiro longo. Estendi-lhe uma vasilha:
- Você sabe ralar cenouras?

8 comentários:

Camila P. disse...

RÁÁÁÁÁ!!!!
MUITO BOM! HAHAHAHAHAHAHHAH

Eduardo Ferreira Moura disse...

Tá rindo de adesão ou auto-crítica? rs

Camila P. disse...

Tou rindo do desfecho. Li, do início ao fim, como quem lê um relato verídico - escrito por uma mulher, claro.
Poucos são capazes de travestir seus escritos tão bem assim.
Parabéns mesmo.

Eduardo Ferreira Moura disse...

Obrigado mesmo, Camila! Eu escrevo como mulher para o correio amoroso de uma revista no Nordeste, tô adquirindo prática no negócio... rs

E desculpa a brincadeirinha da adesão ou auto-crítica, viu!

Eduardo Ferreira Moura disse...

Obrigado mesmo, Camila! Eu escrevo como mulher para o correio amoroso de uma revista no Nordeste, tô adquirindo prática no negócio... rs

E desculpa a brincadeirinha da adesão ou auto-crítica, viu!

Camila P. disse...

tá, confesso que foi meio autocrítica: tenho filhos gêmeos exatamente porque minha mãe nunca me ensinou a "ralar cenouras".

Eduardo Ferreira Moura disse...

Olha só! Meus parabéns, mamãe!

Camila P. disse...

Opa, não tinha visto seu penúltimo comentário.

"Eu escrevo como mulher para o correio amoroso de uma revista no Nordeste"

Não??! Dizem que Chico Buarque treinava da mesma forma (not).

E obrigada! Felizmente minha gravidez teve um desfecho muito mais feliz do que da Marieta. :)