Por Eduardo Ferreira Moura

4.12.11

Pós-Socrático

Enfim, acordei bem disposto. Para comemorar, resolvi fazer a barba. Arrastei esse pobre saco de ossos que chamam corpo até o banheiro, levando comigo o radinho de pilhas, sintonizado na Super Rádio Tupi. Queria a companhia do Francisco Barbosa. Se bem que, pela hora, já devia ser o Coelho Lima. Fosse quem fosse (em meio a tanta sonolência não identifiquei a voz), no corredor que liga o quarto ao banheiro, que nem é tão grande assim, comunicou-me do falecimento do Doutor Sócrates.
Caso alguém não conheça, o doutor Sócrates foi meia e atacante do Corinthians e do meu Flamengo, além de médico nas horas vagas e cronista da Carta Capital. Muito atuante na campanha das Diretas Já e na zona da intermediária, foi acusado de subverter a ordem social e corromper a juventude. Não, espera, esse era o filósofo. Se bem que o jogador também era meio filósofo. Pelo menos a barba ele tinha, que é a credencial necessária para quem quer filosofar.
O fato é que choveram justas homenagens, mas uma delas o acusava de ter sido o melhor jogador de todos os tempos do Corinthians. Respeito os mortos, mas ainda mais os vivos. O melhor jogador de todos os tempos do Corinthians foi, claro, Rivelino. Isso é fato tão consumado quanto o sabor que a água não tem. Pensando bem, o corredor que liga o quarto ao banheiro é grandinho.
Quando pisei nos azulejos gelados, já estava convicto de que prestaria minha homenagem também: deixaria o bigode. Uma homenagem dupla. Não apenas por estar tocado pelo falecimento do doutor Sócrates, dono de muitos talentos que farão falta ao mundo, mas também estaria fazendo justiça ao Rivelino que, coitado, ainda está vivo. Decidido, deixei o bigode.
Era a primeira vez na vida que ostentava um bigode. Quem nunca ostentou um bigode não sabe, mas um bigode pesa. Subitamente, entendi de onde vem a força conjurada pelo Riva quando chutando de canhota. Subitamente, entendi de onde vem a força conjurada pelo Sarney quando... Deixa pra lá.
Ainda em processo de aclimatação, mas ligeiramente feliz com a força do meu bigode, desci para comprar pão e mostrar minha nova fachada para o porteiro. Se tem alguém que entende de bigode aqui em Laranjeiras é o porteiro do meu prédio, cujo o doutorado em tricotilofilia facial foi expedido ainda no Ceará. De bigode e de futebol, aliás, o Severino entende.
Com um sorriso pendurado nas orelhas e emoldurado pelo bigode, parei na portaria. Abri a boca para dizer qualquer besteira, mas foi o Biu quem falou primeiro:
- Oxe, e porque desse bigode?
Estupefato, mas satisfeito, respondi:
- Achei que você entendesse de futebol! É uma homenagem a um jogador famoso do Corinthians, adivinha quem!
E Biu, transbordando da sabedoria do Nordeste:
- Oxe, e desde quando que o Tiririca jogou no Corinthians também?
Subi e tirei o bigode.

***

Se Deus existe, vai com Deus, doutor Sócrates. Se Deus existe, fica com Deus, Rivelino.

2 comentários:

Marcelo Guido disse...

Bicho, entendo essa tua amargura com o bigode, passo sempre por isso...Na faculdade a minha esposa (na época Namorada)dizia se tratar de uma tal de Fase "Los Hermanos", que um dia ia passar, quando comecei a Lesionar deixei a barba e o bigode crescerem para dar um ar intelectual, mas não teve jeito... No máximo que ganho é "Vai tirar essa porra de bigode de porteiro da tua cara" ou " Tira essa barba ta com cara de sujo", sobre pressão tiro e ouço sempre com sarcasmo "Quase não te reconheci..."

Eduardo Ferreira Moura disse...

Pois é, Marcelo! Tem gente que é indissociável do próprio bigode/barba! Abraço!