Em um relacionamento, um sempre vai amar mais que o outro. Isso não sou eu quem diz, está na bíblia do amor mortal, a obra de Suzana Flag. Quem ama mais, sofrerá mais. Cabe, então, a quem ama menos, não se aproveitar dos sentimentos do outro quando lhe aprouver a carência, como um gato que brinca com a baratinha no chão da cozinha antes de devorá-la. Quem ama menos deve ter a decência de sair da vida e da cozinha de quem ama mais. Sair em definitivo, sem telefonemas para perguntar como tá o cachorro, o irmão, a puta que o pariu. Sem e-mails bonitos ou malcriados. Sem covardes mensagens de texto. Amando menos, o silêncio é a maior prova de amor que se pode dar.
Já quem ama mais, mais dia ou menos dia, terá um coração partido. A perda de um amor não lhe confere o direito de perder também a dignidade, no entanto. Há que se recolher ao buraco onde sozinho se esconde nas noites frias. Não se pode dar ao gato o prazer da brincadeira no chão da cozinha. Nunca mais. É o único jeito de fazê-lo quase sofrer, mesmo que por quase dez minutos.
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