Glória,
Olá! Como estão as coisas nessa cidade de monumentos e pessoas cinzas e sem graça? (Gosto de cinza, você sabe, puro recalque). Espero que esteja tudo bem e que já esteja reintegrada à sua divertidíssima rotina. Mentira, não espero que esteja reintegrada a nada. Aliás, de você não espero nada. Ou espero não esperar.
Sinceramente, Glória, não sei quem chegará primeiro: você ou a carta. Nem bem aquela janelinha de quinas ovais emoldurou seu rosto, virei de costas para que você não me visse de cara inchada e nariz escorrendo - por isso as gotas no papel, desculpa. Corri para o carro e, ao volante, escrevo essas besteiras que agora você lê no aconchego do seu lar. A cada linha que avanço, esbarro na buzina e o segurança me olha com medo. Imaginei que um segurança de aeroporto visse isso o tempo todo, deve ser o primeiro dia desse cara. Odeio aeroportos. Odeio passaportes, companhias aéreas, Polícia Federal, música ambiente e esteiras rolantes. Odeio balcões, odeio a moça no guichê e o terninho azul dela. Odeio também o lenço vermelho em seu pescoço, malas feitas e portas de vidro. Odeio toda essa merda. E aviões, puta que pariu, como eu odeio aviões. Máquinas inventadas com o propósito de levar para longe quem a gente gosta e trazer para perto doenças da selva.
Além desse ódio pelo transporte aeroviário, não sei o que mais estou sentindo nesse instante. Seja lá o que for, sinto que não estou sabendo lidar com isso. Tem gente que chora quando não sabe como lidar com as emoções. Tem gente que vomita. Tem gente que tem câncer. Eu escrevo essas besteiras.
Assim que a porta do avião se fechou - puta que pariu, como eu odeio aviões -, tive vontade de te esquecer. Pensei que o melhor seria que você se acertasse com seu marido. Afinal, nunca estiveram brigados. E que nunca mais voltasse para essa cidade. Minha cidade. No fundo, seu marido é um cara legal. Juro que casaria com ele. Falo palavrão, como carne, piso na grama, bebo - e não me refiro a vinho tinto suave -, tenho uma fonte de renda instável e uma invejável coleção de manias. Ele não.
Mas quem estive tentando enganar? Não quero que vocês se acertem coisíssima nenhuma. Aliás, quero que vocês se acertem pratos, um na cabeça do outro. Quero que você faça as malas e toque a minha campainha. De novo.
Só que não é isso o que você quer. Não sou eu quem você quer. Quando lembrei disso, quis que seu avião caísse. Resolveria as coisas para nós dois. Mais para você do que para mim, até. Mas ele não vai cair. Puta que pariu, como eu odeio aviões. Confesso que cheguei a me imaginar no seu funeral. Eu, seu marido, sua irmã, etc. Situação desagradabilíssima, aliás. Até que me toquei de que nesse hipotético desastre não haveria funeral, porque não encontrariam corpo para enterrar. Por isso, apenas por isso, desejei que seu avião chegasse em segurança ao seu destino. Puta que pariu, como eu odeio aviões.
Em meio às minhas incertezas, não consegui escolher a mais incerta. Não sei o que quero que você queira. Se você optar por ficar aí, espero (e duvido) que seja feliz e não me mande notícias. E que nunca mais venha ao Rio de Janeiro. E que, se vier, me ligue para uma rapidinha, apenas.
Só não me faça, novamente, levá-la ao aeroporto, a fim de te ver levantar vôo rumo à infelicidade, para além das fronteiras da minha vida, nas asas de um caixão de aço, tendo por epitáfio: TAM.
Puta que pariu, Glória, como eu odeio aviões. Volta pra mim. De ônibus.
Beijo.
2 comentários:
"Máquinas inventadas com o propósito de levar para longe quem a gente gosta e trazer para perto doenças da selva." melhor definição que já li sobre as latas voadoras! sou a favor da expansão mundial da malha metroviária. e do fim das despedidas...
Também sou bem fraquinho pra despedidas..
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