(Preguiça/resistência enorme de revisar com carinho. Peço a gentileza de ser informado das besteiras que possam vir a ser encontradas na leitura aí embaixo, para que possa minimizar a tragédia..)
Márnio era auxiliar de cartório no décimo ofício de notas, ali na Rua Erasmo Braga, perto do Menezes Cortes. Tão perto que não sabem os menos velhos, mas o Menezes Cortes outrora se chamou Erasmo Braga. O terminal, claro. Até que um acidente de avião vitimou o general-deputado (que pessoalmente não conheci, mas pelos títulos só podia ser boa gente...) e em sua homenagem póstuma rebatizaram o terminal com o nome do falecido. Ali pertinho da Rua Erasmo Braga, sendo esse, por sua vez, pastor. Se há uma profissão que, desde sempre, anda mais caída do que avião de general-deputado é o ofício de pastor. Mas tudo isso ignorava Márnio, como tantos. Ele, como tantos, lembrava-se sempre do Erasmo Carlos quando passava pela supracitada rua do cartório. Com freqüência se flagrava cantarolando: cupara cuparacupara...
Era casado, como tantos, mas, também como tantos, tinha outra. São tantos esses outros tantos que já não se sabe o correto de grafar: “era casado, mas tinha outra” ou simplesmente "era casado e tinha outra". O pior é essa outra que, como tantas, tinha outro, sendo esse outro seu próprio marido. Espera-se que não tenha ficado claro, porque ninguém entendia aquela situação, mesmo pessoalmente. Os próprios substantivos vêm em socorro do nosso entendimento: Márnio casou-se com Alda, mas amava mesmo Rosana. Essa última casada com Gaudêncio, mas amando mesmo ninguém: só passava o tempo. No final de semana passava o tempo com o marido, durante a semana com o amante.
Assim, a vida voava. Na hora do almoço, Márnio deixava o cartório para bater ponto na Rua Senador Dantas, onde Rosana já o esperava em um quarto com cheiro forte de sabão de coco. Depois do “almoço”, Márnio retornava aos seus carimbos e Rosana apanhava um 572 para o regresso a Botafogo, tinha de estender a roupa, que a essas alturas já havia acabado de bater e repousava tranquilamente, dentro da máquina de lavar. Dessa maneira que centenas de outras donas de casa em Botafogo botavam as roupas para bater. Motivo pelo qual os pontos dos horários de almoço dos maridos de suas vizinhas normalmente batiam com algum atraso e marcas de beijo. Bons tempos.
Mas essa fábula urbana é tão prosaica que nada há de fabuloso nas historietas semelhantes de todos os vizinhos e vizinhas infiéis de Rosana, representados por cada janelinha de cada prédio, de cada rua que a rodeava. O que havia de fabuloso se dava em decorrência, justamente, de Gaudêncio, seu próprio marido, aquele com quem dividia a janela nas noites quentes e a cama nas noites frias. Apesar do nome, Gaudêncio não nasceu no sul. Ao contrário, é baiano. Uma vez que trabalhava na Companhia Telefônica Brasileira, cujo edifício é ali pela Mayrink Veiga - a rua carioca, não a perua paulista -, passava a hora do almoço em outro quarto com cheiro de sabão de coco, dois andares acima do quarto de sua esposa no edifício da Rua Senador Dantas. Agora veja só que mundo pequeno, justo com quem? Com Alda, que, há que se recordar, no altar disse o tal "aceito" para Márnio.
Se o horário de almoço do décimo ofício de notas fosse tão generoso quanto o da CTB, com certeza um encontro deveras desagradável, ainda que familiar, teria sido promovido no hall do pecaminoso edifício. Por sorte, a consolidação das leis do trabalho, nossa tão querida CLT, estava mais consolidada no jovem setor da telefonia. Dessa maneira, nos dois anos de encontros potencialmente vexatórios, os quatro jamais se esbarraram. Às vezes protegidos por menos de quinze providenciais minutos.
Estava indo tudo muito bem, obrigado, de ambas as quatro partes. Até que, lá para fora do Brasil, um estrangeiro doido desses se desentendeu com outro e só entenderam que o jeito era aumentar o preço do petróleo. Chamaram de crise e tudo, de tal forma que não havia mais santo capaz de sustentar a gasolina do povo brasileiro. Gente que havia gastado uma baba comprando aqueles carrões americanos enormes se viu na obrigação financeira de encostar os trambolhos nas calçadas e passar a ir para o trabalho no lotação. De vez em quando jogavam óleo queimado em cima só para não castigar muito a pintura, mas dirigir mesmo havia ficado muito caro. A energia escasseou de tal forma que, muito compadecido com a causa do proletário brasileiro, algum general desses que presidia a nossa adorável bagunça teve a brilhante idéia de racionar. Primeiro racionou o raciocínio, depois a energia.
Não fossem os estrangeiros em crise, que desencadearam o racionamento de raciocínio do general, naquela tarde não haveria faltado luz no edifício da Rua Senador Dantas. Nem na tarde seguinte. Nem na tarde seguinte. Porque acredite quem quiser, a luz começou a nos faltar todos os dias, com um rigor militar, tinha hora e bairro certo. Era uma comovente desordem unida da eletricidade.
Rosana e Márnio ainda carregavam os sorrisos pendurados nas orelhas quando entraram no elevador. Era um modelo mais antigo que a república, de porta pantográfica com adornos dourados e um painel de botões madrepérola. Seus dedos indicadores se encontraram graciosamente por cima do botão que os levaria ao térreo. Sorriram de novo. De frente para o espelho, Rosana ajeitou os seios contidos pelo sutiã, pensando que talvez o pulôver vermelho que dera para Gaudêncio de aniversário tenha soltado tinta nessa lavagem. O que, aliás, viria a confirmar dali instantes. Márnio sentia fome e não agüentava mais ter de comer sanduíche de pernil, ao invés de almoçar, para não chegar muito atrasado no regresso ao trabalho. Sem qualquer espécie de aviso prévio, seus devaneios cotidianos, ainda transpassados por polaróides do sexo da última hora, foram interrompidos pelo súbito estalo no elevador. As luzes se apagaram. Cessou o movimento. Ouviram-se gritos cortantes para além das portas e depois um silêncio doído, profundo. Era o silêncio dos culpados.
Não havia muito que fazer. O que havia para ser feito, aliás, havia sido feito há muito pouco tempo. Inicialmente, resistiram à ansiedade de pé, zanzando de um lado para o outro do cubículo escuro. Ambos pensando em seus cônjuges e no mar de tragédias que o inesperado poderia desencadear. Não desconfiavam que, dois andares acima, Gaudêncio e Alda ainda se lavavam do amor um do outro, para que pudessem voltar imaculados ao exterior de suas respeitáveis vidas morais. Se soubéssemos o que se passa dois andares acima, jamais andaríamos de elevador.
De volta à escura caixa da agonia, o casal decidiu sentar e esperar, que era o mais sensato a se fazer. Casar e trair são dois sentidos opostos dentro de uma mesma direção, como os trilhos do Japeri, que tanto nos trazem quanto levam. Embora Rosana não tolerasse o trejeito doce de Gaudêncio expressar seu amor, que velava sua típica intransigência no momento de escolher qualquer coisa que originalmente dissesse respeitos aos dois, sujeitava-se voluntariamente aos seus desígnios já há oito felizes anos. Por mais que Márnio a divertisse, fizesse com que ela se sentisse renovada e desejada, adicionasse sentido a sua habitual existência insípida, preenchesse seu interior e suas tardes, ela era incapaz de passar quinze minutos presa com ele, seja no elevador ou em um casamento. O mesmo se diz do próprio Márnio, que se sentia verdadeiramente homem apenas ao lado - ou em cima - de Rosana, mas a achava bastante superficial quando vestida. Só que à maneira deles - que não nos enganemos, é também a nossa - se amavam em alguma instância. Isso em quinze minutos que pareceram hora e meia.
Quinze minutos suficientes para que Alda e Gaudêncio deixassem o quarto no escuro, trocando um penúltimo beijo no corredor. Mais por hábito do que por qualquer outra coisa, apertaram o botão de madrepérola que comunica ao elevador que alguém o aguarda. Seus dedos indicadores se encontraram. Sorrisos. Beijos.
- Estamos no sexto andar. A gente espera a luz voltar ou desce de escada?
Ela ficou com preguiça de descer. Pernas ainda bambas. Insistiram no botão e sentaram-se à porta da caixa da agonia.
- Vamos esperar um pouco, se não voltar a gente pega a escada. Não quero que você se atrase e perca o emprego.
Novo beijo, esse para disfarçar a agonia de ficar preso no corredor escuro com o amante, que servia para muitas coisas, mas para isso não. Ficaram assim os quatro, sentados dois a dois, dentro e fora da caixa. Se os gringos que começaram com tudo soubessem, teriam feito as pazes de tanto rir. Dessa forma, o amor estava preso nas mãos da sorte, como o elevador estava preso a um cabo de aço. Na outra extremidade do cabo enrosca-se uma roldana, essa sim presa ao teto. Girando-se a roldana no sentido horário, o elevador sobe - vindo a parar no andar de Alda e Gaudêncio, que o haviam convocado. Girando-se a roldana no sentido anti-horário, o elevador desce, libertando-os da acareação.
A roldana e os deuses pararam para assistir ao momento em que a luz voltou. A claridade veio do teto para anistiar os corações culpados nos quartos, que não puderam conter as exclamações de alegria, ouvidas nos corredores e mesmo no elevador, outrora caixa da agonia.
O elevador sobe e os casamentos acabam, mas de maneira bastante literária. Ou o elevador desce e os casamentos perpetuam, de maneira que ninguém nunca tome conhecimento do risco que correram naqueles minutos terríveis, separados por poucos metros. Não pelos feitos da providência divina ou da providência das roldanas - dá no mesmo -, mas por uma questão de lógica, o elevador desceu. O elevador descia quando parou, posteriormente alguém o chamou, mas primeiro ele tem de seguir seu caminho até o final, antes de mudar seu sentido – também como o Japeri. Márnio e Rosana escaparam para as confidentes ruas do centro da cidade antes que o elevador subisse para buscar Gaudêncio e Alda, que em seguida escaparam pelas mesmas ruas.
Continuaram com o relacionamento extraconjugal por mais alguns bons anos, até que Márnio saiu do cartório para ser técnico contábil em uma empresa às margens da Avenida Brasil. Rosana ficou com preguiça, passou a assistir a Vale a Pena Ver de Novo, ao invés de trair, enquanto a roupa batia. Gaudêncio ainda profanou a instituição do casamento com louvor por mais algum tempo, até que a diabetes o obrigou a cortar o doce do almoço, além de lapidar sua libido de maneira consistente. E consistentemente triste.
Mas os quatro permaneceram casados até os dias de hoje, como deveria ser. Aquele foi apenas um almoço longo demais. De vista, todos conhecemos Márnio, Gaudêncio, Alda e Rosana. Eles são como seus avós, talvez sejam até os próprios. Só estão juntos hoje porque o elevador deles desceu. Ainda bem.
2 comentários:
fez pensar que o roteiro das relaçoes se desenrola como se desenrola apenas por que existem finas películas de paredes que protegem os incautos personagens! gostei muito!
Que bom que gostou, achei esse texto meio quadrado ainda, provavelmente vou mexer nele e mudar o final um dia, mas as finas paredes existem...
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