Por Eduardo Ferreira Moura

30.10.11

Comia o Câncer e o Bebê.

O câncer está com Lula. Essa condição, somada ao mais novo movimento político de sofá da Internet para que nosso excelentíssimo ex-presidente da República se utilize do Sistema Único de Saúde, fez com que eu rompesse um longo silêncio de crônicas. Ultimamente, acho que há mais de um ano, este blog conta apenas com contos e com uma resenha de um documentário que não existe, mas que ninguém sabe. Diferencio o conto da crônica, pois o conto de jornal poderá vir a ser literatura se relido pelos olhos certos daqui cinqüenta anos. A crônica de jornal, se relida pelos olhos certos daqui cinqüenta anos, poderá vir a enrolar o peixe que as madames compram na feira, embora eu admire e pratique os dois gêneros, quando possível. É cruel, mas é verdade, daqui cinqüenta anos absolutamente ninguém vai se lembrar desse texto, ou mesmo do movimento que nós - os populares - promovemos e criticamos, para que Lulinha se utilize das homéricas filas do SUS.
Sobre os oito anos de governo Lula, acho que foi tão ruim quanto teria sido com qualquer outro, de maneira que estou reagindo ao seu câncer, como reagiria ao câncer do Serra, do Aécio, do FHC, ou do ascensorista do Edifício Avenida Central: com um honesto pesar. Porque são seres humanos, mesmo os políticos. O câncer é uma doença terrível e sem cura - como a AIDS, mas também como a gripe - e agora que compomos uma sociedade minimamente civilizada (mas que ainda assiste a reality shows) seria muito feio não torcer para que qualquer um se recupere de um câncer. Mesmo o Sarney, o Mano Menezes ou os roteiristas do Zorra Total.
Mas até aí, morreu Neves e por enquanto apenas ele. Não trouxe nenhuma novidade, mesmo para os eleitores do PSDB. Todos já temos consciência de que somos civilizados e por isso torcemos para a melhoria do estado de saúde do Lula, certo? Espero sinceramente que sim. A questão é lançar mão ou não do Sistema Único de Saúde. Durante seus mandatos, Lula disse mais de uma vez que o SUS é um dos melhores sistemas de saúde do mundo e que, se caísse doente, cairia por lá. Mas a vida, ora vejam, é uma caixinha de surpresas. Quem foi que caiu doente? Pois é, menina. E Lulinha caiu nas graças e nas macas do SUS, ou caiu nas confortáveis camas do Hospital Sírio Libanês? O ascensorista do Edifício Avenida Central que tem câncer está na fila do SUS me contou que até agora não viu o excelentíssimo presidente por lá, não senhora.
Lula está sob os cuidados dos médicos e da tecnologia de ponta do Hospital Sírio Libanês. Preparem as pedras. E é para estar mesmo (embora eu entenda o movimento e até concorde que ele representa algum avanço político). Não importa o que Lula disse no passado, não importa que fique com a pecha de mentiroso caso sobreviva, importa sim que, em um sistema de saúde onde as pessoas ficam noventa dias na fila para conseguir a primeira sessão de radioterapia, quem tem dinheiro que saia da (porra) da fila e vá se tratar no particular mesmo. Ou vocês acham bonito que o ascensorista do Edifício Avenida Central morra na fila esperando que Lulinha resolva desocupar um leito por pura demagogia e populismo? Acho tacanha, acho feio, acho até meio vergonhoso.
Isso porque, assim como Lula jamais se trataria pelo SUS se caísse doente, o SUS jamais foi um sistema de saúde maravilhoso, apesar de ser muito bem pensado. É superior, por exemplo, ao que se tem por saúde pública nos States, que é de dar pena. E por lá, a Hillary Clinton rala o cu nas pedras para conseguir implantar um modelo parecido com o nosso e tem que ouvir as bestas republicanas (que na humilde opinião do cronista são piores que todas as nossas bestas típicas) a chamando de socialista. Já o socialista e socialite Fidel Castro, não saiu de Cuba, que tem um sistema de saúde universal incrível, para tratar dos seus intestinos públicos.
Nunca votei no Lula e não votaria nele na eleição de político para escapar do câncer, se tivesse disputando o segundo turno com o finado José Alencar. José esse que se tratou no mesmo hospital particular. E morreu. Porque escolher entre público ou privado (ainda) não é sinônimo de escolher entre morte e vida, embora as estatísticas favoreçam o sistema particular. Uma boa maneira de escapar ao câncer, aliás, é evitando a política brasileira, que faz mais vítimas do que o microondas e o celular juntos. Lembremos da presidenta Dilma, do próprio Zé Alencar, Mário (pé nas) Covas, Eduardo Suplicy, Luiz Gushiken, Roseana Sarney, José Sarney, Paulo Maluf e até Orestes Quércia, dos dizeres "Quércia vem aí", alguém lembra? Pois é, foi. Se continuarmos assim, o Sarney vai inventar um projeto de estatização do câncer. A maioria desses políticos, aliás, com câncer de próstata. Não dá para não pensar em justiça divina, para quem acredita em Deus, ou em somatização, para quem acredita em Freud, uma vez que os políticos com câncer de próstata são justo os que fazem o povo tomar no c.. Hum, deixa isso para lá, porque no geral a gente é muito careta para rir de piadas com câncer, ainda que em um Justin Bieber da vida.
Nenhum desses políticos se tratou pelo SUS, só a título de curiosidade. Agora, já que o tema é esse, acredito, sim, em um projeto de lei que vise tornar obrigatório o tratamento no SUS para funcionários públicos e familiares, bem como o ensino em colégios públicos para os mesmos. É cruel com quem tem condições de se tratar no Sírio Libanês e mais cruel ainda com quem não tem. Parece até contraditório com o que acabei de declarar sobre a lulice do Lula, mas não é, posto que minha lei abrange apenas doenças não diagnosticadas previamente. E esse remédio é amargo, mas é o único que vislumbro para a cura do câncer que consome o próprio SUS.
Câncer esse que, aliás, também consome o humor. Não cabe aqui trazer as críticas pertinentes a esse fascismo digital contra as piadas, porque o tema aqui é o câncer como doença física, não a doença mental do pessoal no twitter. Mas vale lembrar a essa geração saúde - que curiosamente parece estar perecendo - politicamente correta e sem graça, que piada sobre coisa séria, como o câncer, evita justamente o câncer. Não se levar a sério, aliás, é uma maneira surpreendentemente eficaz de evitar o câncer, segundo o IPE (Instituto de Pesquisas do Eduardo). Sem contar que é uma maneira de conscientizar e criticar de maneira muito limpa e acessível. Quem não gostou que vá se tratar. Pelo SUS.
Termino esse texto com minha sincera - é sério! - esperança na recuperação do ex-presidente. E também do ascensorista do Edifício Avenida Central.

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