Eduardo Ferreira Moura

5.8.16

Bom Dia

Hoje é Domingo e não há chocolates sobre o travesseiro da humanidade. Ninguém me espera. Meu telefone é uma formalidade anacrônica. Meu nome não está em nenhuma lista de presença. Nenhuma planilha me contém. Não existo para além do espaço físico que minha cama ocupa no universo e o vazio da existência tem um aspecto ótimo - daqui de cima. Onde estão meus cigarros?
Posso ficar de pé ou permanecer deitado. Posso comer bem ou jejuar convicções. Apoiar uma causa. Regar plantas. Conversar com elas. Sair para ler ao sol, ver um filme de merda e fingir que não é sobre mim mesmo. Abrir a janela ou pegar um cobertor. Praticar esportes. Desperdiçar essa melancolia. Atear fogo no corpo e correr pelado na Rio Branco. Caminhar no parque. Andar de trem. Posso lavar o banheiro. Esfregar os ladrilhos até fazer sumir o limo, a cor, os próprios ladrilhos, o reboco, as paredes, o edifício, a esponja, meus dedos. Hoje posso escrever um livro. Talvez devesse escrever um livro, embora isso seja a coisa mais egoísta a se fazer - quem se importa? Ver na tv o futebol. Os gordos, os velhos, os broxas, comentando o futebol. Aplaudindo o futebol. Financiando o futebol. Babando no futebol. Gozando com um tape do Pelé. (Mas eu não). Posso beber cerveja, comer linguiça, torcer por cores que nunca me disseram nada. Não sou como eles, embora seja. Ajudar crianças carentes. Posso (tentar) me apaixonar - mas sei que não devo. Mandar uma carta. (Os Correios estão fechados). Ir a um museu e gastar minha jornada na Terra fingindo que me importo. Tomar um chicabon. Flertar. Alimentar os pombos. Ir à missa, ao culto, ao inferno. Aplaudir o Golpe. Construir uma família, alugar um apartamento no subúrbio e comprar um Chevette. Posso vomitar na modernidade ou lavar a privada e, na verdade, não faz diferença. Arear panelas ou rever amigos. Arranhar versos. Fazer um bolo. Tocar violão. Pedir uma pizza. Cheirar pó. Comer pipoca doce com leite condensado. Ouvir jazz ou sambar. Estender roupas na corda. Visitar minha avó. Enunciar os dispositivos através dos quais a humanidade alheia-se de si própria aos Domingos.
Porque Domingos não são para viver e sim para contemplar. Domingos são metáforas. Não importa que dia seja, hoje é Domingo e faz sol. Aos Domingos posso inclusive não acordar. Mas todos sabemos que acordei. Bom dia.

27.7.16

Amanhã

Sentou-se à penteadeira e não viu quando o vigésimo dos minutos transcorreu diante de si. O quarto, imóvel. A existência em suspensão nas partículas de poeira desnudadas por uma nesga de sol. O silêncio no berro das paredes, como se a cidade inteira estivesse de luto.
A despeito do cotidiano, era a primeira vez, em cinquenta e dois anos, que voltava àquele quarto, onde dormia todos os dias. Intrinsecamente vazio. Com aquela desfaçatez destilada dos imóveis plenamente vazios. O estalar dos tacos. O brilho da pintura. O eco, o sol e a penteadeira.
Naquele dia, pensou, era quase noite. O fim de uma tarde de maio. Ele a conduziu, cobrindo-lhe a visão. Mesmo agora, cinquenta e dois anos depois, bastava fechar os olhos e podia sentir seus grandes dedos a pesar sobre a face miúda. Já não tão miúda. O sorriso costurado na cara dele, desde a primeira vez em que estiveram juntos no quarto. Imóvel. Deserto de tudo - menos penteadeira.
Em seus devaneios, a velha agora encarava a cama. Comparsa de crimes antigos, com cheiro de guardado. Mas não pensava neles. Pensava na liberdade que espatifava-se sobre sua cabeça, como uma melancia. Decidiu que continuaria a dormir do lado direito, como se ele ainda estivesse vivo. Do lado direito, como se ele não estivesse mais ali apenas porque levantou-se para fazer xixi. Logo ele volta. Lado direito.
Do outro lado da janela, sob o mesmo sol, Itamar estica os joelhos da filha. Que te importa o nome da síndrome? O calçadão enxerga apenas uma criança, esparramada sobre sua cadeira de rodas enquanto a tristeza de um velho barrigudo estende seus joelhos mortos ao crepúsculo.
O velho, ao contrário da cadeira de rodas, não está ao abrigo de uma sombrinha. Sua pele morena e a angústia dos seus gestos têm muito a dizer sobre o tempo que ele vem esticando os joelhos da criança. Sobre o tempo que, inutilmente, ele prosseguirá a esticá-los. Até que a artrite coma a vida de seus próprios dedos; precisando eles serem esticados, por intermédio dos dedos de outrem. Sob o mesmo sol, que insiste em escorrer sobre o frio da existência.

3.5.16

O Circo Chegou

O circo chegou. As cores dos seus caminhões se espalharam pela cidade. Não se fala em outra coisa. Os meninos começam a juntar o dinheiro da merenda para conseguir comprar ingresso. As meninas não acham boa idéia. (Algumas acham). O dono da cantina também não. Os adultos, os homens de bem como um todo. Os que acordam cedo. Aqueles cuja precisão da rotina dispensa o relógio.
- O circo é perigoso.
Precisa ser.
Ele traz animais selvagens. Criaturas inacreditáveis! Um macaco maior que dez homens. Um homem menor que um cachorro. Cachorros que dançam balé. Um mágico do oriente. Mulheres exóticas. Cheiros que nunca antes foram sentidos por nenhum nariz.
A cidade agora está viva. Os dias são mais coloridos, há bolinhas nas roupas. Os primeiros adultos a notar são também os mais velhos. Depois, as mulheres. Logo a fila dá a volta no quarteirão.
"Quarta-feira a trupe almoçou naquele restaurante".
"Que chique".
"Você conte os talheres para o caso de quererem almoçar aqui".
Até que um dia deixam de ser novidade. Pouco a pouco, despenca o preço do ingresso. Os moleques já não espiam por debaixo da lona nem para fazer hora. Tempo de cair na estrada. Antes que não seja mais possível esconder com maquiagem colorida as rugas sob olhos que não sabem onde vão se fechar na semana que vem. Os moleques mais matreiros, os melhores em enxergar desenho em nuvem, colocam uma trouxa nas costas e se juntam à trupe.
É hora do circo partir. Vai rodar o mundo e volta ano que vem. Diz que vai trazer da Índia um diamante que permite ler a mente. Um russo que é o homem mais forte do mundo. Ano passado prometeu o macaco e cumpriu. Mas o tapete voador ainda está devendo.
Então veio a Internet. Todos os circos do mundo estão disponíveis no bolso das pessoas o ano inteiro. E depois o circo nunca mais chegou.

1.5.16

Memorabilia

Desde que tudo acabou, hoje fiz minha primeira visita ao museu do nosso fracasso. A exposição permanente é mal iluminada e uma espessa camada de pó recobre todas as superfícies. A pátina do tempo já ameaça as cores tão intensas - talvez vivas demais - que recobriam os dias de ontem.
Na estante de livros, espaço. É como se cada vão fosse um abismo de você. Ao contrário do banheiro. Lá, seus cabelos para sempre. E no meu imposto de renda. E na assinatura da revista, que insiste em continuar chegando.
Os talheres me tiram o apetite. As panelas gritam comigo. Os pratos me ameaçam. Encaro os trezentos saquinhos de tempero sem saber para que servem. Joguei todos dentro de um macarrão. Não senti nada. (Talvez lingüiça). Noz-moscada, para mim, é uma abstração. E nunca mais comi quiche.
Os lençóis me tiram o sono. Agora, odeio a janela. Apaguei seu nome das minhas dedicatórias. Rasguei cartas, fotografias, poemas, ingressos e guardanapos. Perdoe pela pieguice, mas também quebrei os discos. Quanto aos presentes, não sei ainda o que fazer. Não reconheço como meus, nem como seus. Foram nossos, como o passado. Estão condenados à poeira de uma caixa na prateleira mais inacessível da memória. E, ao mesmo tempo, tão presentes. Até o gato agora me sorri de outra maneira. Lembrar passa. Esquecer que é para sempre.

2.6.13

A Máquina

- Não são as máquinas que escrevem os livros. São os escritores.
(Ainda) Não consigo escrever à máquina. Olho para ela com muita admiração. Com admiração demais. Talvez. Ficamos em silêncio, nos encarando por longos minutos, que facilmente transformam-se em horas. Meu olhar é de assombro. O olhar que os homens bobos destinam aos automóveis, guindastes, ou qualquer tipo de máquina que solte muita fumaça preta. Essa máquina não solta fumaça. É uma máquina de construir futuros.
Posiciono os dedos. Ela se encolhe. Percebe, pela minha linguagem corporal, que estou prestes a lhe tocar. Tenho medo que me morda. Sei bem do que ela é capaz. Mas ela não sabe - e não parece querer saber - do que eu sou capaz. Se é que sou. Se é que sei.
- Não são as máquinas que escrevem os livros. São os escritores.
Digo a ela, muito firme. Seu silêncio, no entanto, é uma resposta muitíssimo superior à minha provocação. Aperto, com desmedida força, o botão que aciona a caixa alta. Ela rosna. Sorrio. Estou conseguindo tirá-la do sério.
Tabulação. Estrondo. Ela não parece querer se deixar dominar. Aquele estrangeiro que doma os cavalos fazendo carinho, todo mundo pensa nele como um sujeito bacana, mas o que ele faz é idiotizar a força da natureza. Ele não é um sujeito bacana. Gostaria que ele viesse dominar a minha máquina. Embora ela não seja um ser natural.
Ainda assim, preciso que ela me enxergue como os cavalos (e as pessoas idiotas) enxergam o estrangeiro. Faço carinho. (De novo). Um metal muito frio. Uma frieza inacalentável. Uma frieza que me diz:
- Não quero carinho.
Aliás:
- Não quero o seu carinho.
É o que ela me diz. Ela aceitaria ser acariciada por um escritor de verdade. Consigo vê-la ronronando aos pés de um sujeito desses com prêmios entregues por portugueses na estante, com óculos de perninhas douradas e osso de tartaruga. É isso que me incomoda nela. Nem tenta disfarçar seu desamor por mim, sua preferência pelos outros.
Com desmedida violência, aperto o botão onde se lê a letra a. Uma haste metálica se eleva rapidamente. Uma coisa linda. Ao mesmo tempo, um intrincado sistema de alavancas suspende uma fita preta, nocauteada pela haste metálica, que vai de encontro à uma imaculada folha branca de papel. A descida do bólido nos permite ler a inexorável letra a na folha branca. Simultaneamente, um estrondo empurra o silêncio para fora da escrivaninha. Estou encolhido na cadeira.
Incrédulo diante do a. Não é um a qualquer. Não é um a como esses que pululam essas linhas e o mundo como um todo. É um a inexorável. Um a grave. Um a impresso para todo o sempre na história da humanidade. É demais para mim. Escrever não é como andar de bicicleta.
Removo a folha e a lanço no cesto de lixo, um cesto repleto de as. Ligo o computador. Ela sorri.

19.2.13

Senhores Pais


Quando você grita com uma criança, ela te escuta. E percebe que, se você não elevar seu tom de voz, nem mesmo um projeto de ser humano que mal deixou os cueiros, uma criatura desdentada, semi-analfabeta, ingênua e melequenta é capaz de te obedecer. A criança nota, quando você esbraveja, que se não recorrer a esse expediente vulgar, nem mesmo os micróbios te dão atenção.
Toda a sua inaptidão para a vida civilizada cabe em um grito. Você atesta o desrespeito profundo e mesmo a indiferença que lhe devem ser dirigidos, caso mantenha a voz inalterada. Demonstra que tem tanta moral quanto um cacho de banana. E bananaliza o conteúdo da sua fala, seus gestos e seus olhares. Pior: quando você grita com uma criança, ela aprende - aos pouquinhos - a gritar também.
Sendo assim, o futuro da nação e, porque não, da humanidade, clama: cala essa boca, se não for pra falar como gente. Educar é outra coisa. Um processo que se dá, na maioria das vezes, quando você está em silêncio.

31.12.12

Fracassos Gloriosos


Para Moana.
É claro.


Então, assim, meio de repente, começou 2012. Viramos uma folha no calendário e isso implica - por algum motivo que me escapa - em grandes mudanças.
Comprei comida no árabe do Largo do Machado, dia 2 ou 3. Ou talvez no próprio 31 de Dezembro de 2011 e algumas sobraram para o ano seguinte. Sei lá, mas lembro que o ano começou com gosto de esfiha. Atendi, com gosto de esfiha na boca, o telefone que tocava.
- Quer escrever assim assim pra gente?
- Quer escrever assim assim pra gente?
(Foram duas ligações, diferentes remetentes, mesmo conteúdo).
- Hm, tá.
Disse para os dois. E ao longo do ano vieram outros. Bacana!
Depois foi o carnaval. Sim, sempre pulamos do ano-novo para o carnaval, não sei qual o motivo do espanto. Estive em Santa Teresa, recarreguei baterias que não estavam descarregadas, andei de Laranjeiras ao sambódromo - via Lapa - e assisti, do ponto de vista da pobreza, aos preparativos para o desfile. Foi divertido. Tomei um chicabon.
Em Março, não havia como protelar, tive de retomar com a Psicologia. Não, não foi bom. Mas foi civilizado. Eu a respeito mais do que ela a mim, é verdade. Mas paciência.
Em Abril, o segundo livro. Como os filhos, acho que às vezes fazemos o segundo para provar que o primeiro não foi um erro. Foi. E também o segundo. Reli o original aprovado pela editora uma semana antes do lançamento. Foi um tabefe e doeu. Desisti do lançamento, mas já era tarde. O prelo é cruel.
A partir daquela semana, não consegui mais escrever uma linha. Meus compromissos com sites e blogs, cumpri apenas reciclando textos velhos. Em Agosto melhorou. Não disse que passou. É estranho dizer que qualquer coisa melhora em Agosto, mas foi o caso. Contos desse livro ou relacionados a ele ganharam prêmios. Doze no total. Também não sei como, não me pergunte. Não sei se achei bom, mas achei bastante... Cabalístico.
Ah sim, houve a greve nas universidades federais. Férias compulsórias. Em matéria de política, não vou nem a reunião de condomínio. A propósito, em Outubro, eleições. Faltei ao pleito convictamente. Estava em Paquetá, onde estive durante boa parte do ano. É um lugar agradável. Por se tratar de uma ilha com oito quilômetros de extensão, cria uma cumplicidade forçada entre os habitantes, um clima leve e denso ao mesmo tempo. Por lá o tempo escorre de outra forma e ficamos com a ilusão de que a humanidade ainda tem jeito. Essa é uma ilusão que gosto.
Então, Novembro e Dezembro. É praticamente um único mês, de tão corrido que é. Também porque foi época de Jasmim Manga. Usei os conhecimentos recém-adquiridos em restauração de livros para fazer cadernos com a qualidade que aprendi que os livros devem ter. No geral, as encadernações que fiz ficaram uma merda, mas os desenhos da Moana salvaram os cadernos. Houve quem comprasse e duas lojas demonstraram interesse em revendê-los pelo dobro do preço que realmente valem.
Dia desses, a gente até torceu, mas o mundo não acabou. Jesus fez aniversário de novo. E é hora de virar a última folha do calendário novamente, um novo convite ao inesperado. 2012 foi um ano bom, porque sobrevivemos a ele. Não é possível prever dois mil e 13. (Sério, não é possível, parem de tentar). É possível e necessário que façamos nossa parte, confiemos de olhos fechados em nossas crenças absurdas e que não nos falte convicção para fazer apostas mal fadadas.
Já fiz as minhas. Dois mil e 13, borboleta na cabeça.

8.11.12

Carta Triste a um Homem Morto


Marcelo,
Espero que essa carta te encontre em bom estado. Irônico dizer isso a um homem morto, mas as pessoas teimam comigo que faz sentido. E talvez faça, sei lá. Dane-se. No geral, não ligo mais para as pessoas e concordo com o que dizem para que elas parem de me encher o saco. Mas contigo é diferente. Defuntos e gatos costumam ser mais sensatos do que o ser humano. Se não fizer sentido esse papo post mortem, você me escreve pra contar, que eu juro que mostro às pessoas - mas evite indecências, por favor.
É tempo de novidades. Nunca te chamei de Marcelo, nunca escrevi pra gente morta e (quase) nunca te mostrei nada do que escrevi, muito menos por carta. Sei bem o que ia dizer:
- Uma merda.
E daria outro gole na vodka. Você tem toda razão. Em relação a qualidade duvidosa das letras e também em encher a cara.
Você não acreditaria nas coisas que andam acontecendo. Não quero te dar más notícias, mas é que, usando um termo técnico, é que tá foda.
Não sei te explicar porque, mas em algum momento a coisa desandou. A vida sempre foi essencialmente sem sentido. E não falo da minha ou da sua, quer dizer, também a minha e a sua, mas das pessoas no geral.
Continuo praticando aquele esporte, janelismo, que consiste em ficar boa parte do tempo na janela, observando gente indo e gente vindo. É uma arte. Trata-se de saber para onde olhar. A pressa nas pernas, o vazio nos olhos, as sacolas cheias de compras. Muitos detalhes. E foi isso que desandou, Negão. Há cada vez mais pressa nas pernas, cada vez mais vazio nos olhos, cada vez mais compras na sacola...
- É assim mesmo. As coisas caminham pra frente. O progresso, a tecnologia...
Agora me diz, Negão, é assim mesmo? Isso é caminhar pra frente? Tenho a impressão de que a revolução das máquinas já aconteceu e foi silenciosa. Elas já nos dominaram. Já nos acorrentaram na tomada. Aliás, mais do que isso, tem um troço novo que ainda não existia quando você partiu, o tal do wi-fi. Eles dizem que estamos todos conectados através de uma rede invisível. Um papo doido, nego velho. Estamos todos "conectados", presos nessa rede, através dos nossos aparelhinhos. Sim, a gente paga por isso. Toda a sorte de aparelhos, vários deles eram ficção científica quando você morreu. Cacete, parece que foi outro dia. Vou te poupar de descrevê-los, mas acredite, são como os anteriores, não servem pra rigorosamente nada.
E a vida continua. Cada vez mais rápida. Como um carrossel desgovernado. Nós, as crianças, ainda não percebemos que o brinquedo se quebrou e, por um defeito, gira cada vez mais rápido. Ainda achamos que é intencional; estamos achando isso tudo divertidíssimo. Eventualmente, um ou outro é impulsionado para a margem e acaba sendo lançado para fora do brinquedo, tamanha a velocidade. Acho que tô quase lá.
Escrever uma carta triste a um homem morto não é um bom prognóstico, não é?
Mas não fica assim. O problema é comigo. De resto, tá todo mundo feliz. Todo mundo parece tão feliz! É sério, muito feliz. Eu não vejo ninguém realmente triste, sei lá, há anos. A fome, a miséria, a injustiça, tudo permanece na mesma. O mesmo horror constituinte que você conheceu em vida. Mas isso parou de chocar os outros, saca? Todo dia a gente reza antes de dormir e no final do ano a gente escava roupas velhas no armário e doa para a caridade. E isso parece ser suficiente. Todo mundo te acha um cara legal por isso. Acho até que muita gente o faz porque todo mundo te acha um cara legal por isso.
E aí eu me sinto desajustado. Essa gente com a bandeira da caridade e dois carros na garagem me parece tão babaquinha! (Hipócrita, nojenta...). Aquele papo do Galeano, de caridade ser vertical e solidariedade ser horizontal... Enfim, ninguém mais lê meu xará. Aliás, essa é uma boa notícia! Atualmente é possível passar no vestibular sem ter lido As Veias Abertas da América Latina, mesmo quem presta para Geografia. Acho boa notícia, sim. Você sabe, nunca curti o establishment.
Outra notícia mais ou menos boa: segui teu conselho e criei o blog (e ele de fato me abriu portas). A menos que você se manifeste em oposição, vou postar essa tua carta lá. Você vai ver o sucesso que vai fazer, entre curtidas e compartilhamentos. Mas também vai ver que ninguém jogou os blackberrys fora. Exatamente, frutinha preta! Noutros tempos isso ia render muita sacanagem, não? Mas agora ninguém liga mais pra sacanagem. O cotidiano todo é meio soft porn. A gente vai se anestesiando de tudo.
É um problema até simples. Parece que todo mundo perdeu o tesão na vida. Sabe quando você tá jogando bola há horas e aí a galera resolve parar pra beber água? "Esfria". Depois o povo volta sem vontade e, se você estava no campo, sem pausas, é o único acordado na partida, mas vai broxando com o tempo, se não tem com quem jogar.
O povo esfriou. Relações humanas, puramente humanas, esquece. Agora as relações respiram por aparelhos. Não existem momentos genuinamente bacanas se eles não estiverem devidamente registrados em megapixels, armazenados em bytes, megabytes, gigabytes e até o tal do terabyte. Agora me diz: de quantos megabytes um ser humano precisa pra ser feliz?
Como você pode imaginar, o número de poetas e fotógrafos aumentou. Mas as poesias e as fotografias pioraram sensivelmente. Ainda assim, sou eu quem pareço louco quando digo que a câmera, no processo do fotografar, é o menos importante. Hoje nada que o dinheiro possa pagar pode ser o menos importante.
Lembra do tempo em que, se você gostava de uma música, tinha que comprar um disco, que vinha com outras quinze músicas que você talvez desconhecesse? Nesse percurso, acabava se apaixonando também por uma das outras quinze, ou até mais. Agora já não é assim. Você gosta de uma música, você a consome. E isso resume a nossa crise, Negão. A gente perdeu a capacidade de lidar com o inesperado, com as outras quinze músicas. A rede agrupa os semelhantes e o diferente que aguarde sua vez de entrar na moda.
O papel, o lápis e todas as infinitas possibilidades que eles abarcam, perderam completamente o propósito. Eles humanizam, então não nos serve. Só serve o que é touch. E ecologicamente correto. (Porque agora as pessoas fingem ligar pro meio ambiente. Como se trocar de celular todo ano, por um modelo mais complexo, quando o seu aparelho anterior funcionava perfeitamente, fosse minimamente condizente com isso).
Não que eu ligue para o meio ambiente ou mesmo para as pessoas. Só acho tudo isso muito triste.
O mundo que a gente conheceu se foi. Agora, o universo inteiro cabe na palma da mão e tem teclado qwerty. Uma pena, né?
Espero que por aí as coisas estejam melhores. Se não estiverem, me manda um e-mail. Desculpa as más notícias, mas é o que tem pra hoje. E o amanhã promete...

Abraço, beijo e escova de dentes,

E!

P.S.: Às vezes, só às vezes e bem às vezes, eu quase sinto um pouquinho de saudade.

18.10.12

João Tem Três Anos

João tem três anos. Acho que vou escrever um livro com esse nome: "João Tem Três Anos". Um livro de contos. Todas as histórias vão começar por "João tem três anos".
Sinto uma certa falta desse marco temporal na maioria das vezes em que um pai, padrinho, avô, vizinho, agregado, enfim, me conta as façanhas de suas crianças.
- Ele já me chama de papai.
- Já sabe andar de bicicleta.
- Ele fala mánica e tevelisão.
Mas você é o pai dele, não é? Andar de bicicleta não é o que todas as crianças fazem? Não quero diminuir ninguém, mas falar tevelisão não torna um sujeito especial.
De qualquer maneira...
João tem três anos. Entrou aqui no escritório, parou diante da mesa e disse:
- O que é isso?
Ele disse exatamente assim. Não disse:
- uti é íxo?
Tenho impressão de que criança alguma fala assim. Não posso dizer o mesmo de alguns adultos. Falar exatamente assim, "o que é isso?", eleva João a um patamar de maturidade com o qual a maioria dos adultos não está acostumada a lidar. Para alguém da idade dele, dizer "o que é isso?" equivale, para alguém da minha idade, a ser honesto com o imposto de renda. João é uma espécie de Lineu Silva das crianças.
Respondi-lhe que era um estilete. E que era um negócio perigoso. Alertei para que não mexesse, ou podia cortar a mão. Exibi, com algum orgulho, as cicatrizes na minha mão, que provêm das mais diversas sortes, inclusive de desastres com estiletes.
João olhou atentamente para as cicatrizes e voltou-se ao instrumento. Pensou por alguns instantes e sou capaz de abrir mão do meu FGTS para saber o que se passava naquela cabecinha, já que, no segundo seguinte, ele disse:
- Posso cheirar?
Fui pego desprevenido. Não havia o que argumentar. Respondi, simplesmente:
- Pode...
Ele aproximou seu nariz do estilete com as mãos para trás. Fechou os olhos e respirou fundo. Satisfeito, abriu os olhos, agradeceu e se mandou. Até agora não entendi o que aconteceu, mas acho que ele nunca mais vai chegar perto de nada que cheire a estilete.

17.7.12

Meu Taco e Maria Helena

Tem duas coisas que eu amo nesse mundo: a sinuca e a Maria Helena. Só isso. Nem minha mãe eu amo, porque ela me largou no Dispensário dos Pobres do Perpétuo Socorro quando eu tinha alguns dias de vida. As freiras sempre me diziam:
- Diolindo, você já é um vencedor. Só de ter sobrevivido à sua mãe...
É bem por aí mesmo, já sou um vencedor só de ter sobrevivido. A única coisa que me deixa triste é saber que tem a tal genética e que um pouco da monstruosidade da minha mãe passou para mim. Mas tenho fé, aprendi no Dispensário, tenho certeza de que puxei mais ao meu pai, que não tenho idéia de quem seja, mas torço para que seja um cientista bem inteligente. Seja como for, sempre repito de mim para mim:
- Diolindo, você já é um vencedor.
Repito em especial quando perco na sinuca, que amo tanto quanto Maria Helena. Nem mais nem menos. Tanto quanto. Mas isso não é suficiente para ela. Vivia perguntando quando ainda falava comigo:
- Que é que você ama mais, Diolindo? Eu ou a sinuca?
Sou um homem de palavra, não sou dessas bichas que muda de idéia todo ano:
- Amo igual, Maria Helena. Amo igual, já te disse.
Não foi suficiente e ela foi embora. Acho que não foi só por isso, mas sem dúvida isso pesou. Maria Helena sempre foi egocêntrica, sempre quis que eu a amasse mais que a sinuca. Não dá. Amo igual. Igual na média. Às vezes mais, às vezes menos, porque é um amor incompatível. Maria Helena odeia que eu jogue sinuca, mas é assim que ganho a vida. Então, quando ela veio morar aqui no barraco, quase não conseguia treinar. Não sei se por isso ou se por macumba dela, nunca ganhava uma partida quando ela assistia. Às vezes a deixava assistir mesmo sendo contra. Acho que devia ser proibido que mulher entrasse em lugar que tem jogo de sinuca, mas ainda assim eu deixava Maria Helena ir, ou não tinha jogo com ela depois do jogo no bar... Maria Helena é fogo.
Mas nessas ocasiões sempre perdia. Cheguei até a pensar em trocar o Juvenal, agora vê. Ele é meu taco e também meu melhor amigo e eu pensando em trocar! Batizei o taco de Juvenal em homenagem ao diácono do Dispensário no ano da minha primeira - e única - comunhão. Meu nome mesmo, Diolindo, é em homenagem ao padre do Dispensário, mas aí não fui eu quem escolhi, foram as freiras. Só escolhi o nome do Juvenal e olhe lá. Escolhi muito do ressabiado. Sempre achei esquisitos esses homens que dão nome ao próprio pau. Tudo bem que Juvenal não é um pau, é um taco, mas pensei duas vezes. Esses homens que dão nome para o próprio pau, isso é criação torta. É homem que a mãe dava Nescau na mamadeira e ficou a um pulo de virar bicha. E dar pulo é bem coisa de bicha mesmo. Não é para mim. Eu jogo sinuca.
Jogando sinuca eu pago o aluguel. Agora, que voltei a ganhar. Mas sinto uma falta danada da Maria Helena, mesmo que o aluguel estivesse atrasado. Continuo amando a desgraçada mesmo depois que ela me largou. Amo tanto quanto a sinuca, mesmo a sinuca não podendo me largar, mas Maria Helena não reconhece isso.
Quando ela morava aqui no barraco, eu rezava todo dia para ver se voltava a ganhar na sinuca. Agora que ela se foi e eu tenho ganhado, rezo todo dia para ela voltar. Eu vou vivendo assim, pedindo sempre a Deus, mas mudando o pedido de vez em quando. E Deus é sacana comigo desde o tempo de Dispensário. No ano em que eu rezava para virar jogador de futebol, quebrei a perna. Aí que o diácono me deu o Juvenal de presente. Diácono é sempre assim, liberal, progressista, com boné do MST.
Mas agora vê se Deus é ou não é sacana comigo. Apareci na Sinuca do Batata depois de muito tempo, que é para ver se os trouxas esquecem que eu sei jogar e botam dinheiro comigo na mesa. E vinha dando certo, eu vinha perdendo todas, porque no início a gente tem que fazer assim mesmo. Passa umas três horas perdendo de dez em dez reais, mas jogando devagarzinho, que é para não perder muito. Depois que já tinha apanhado mais que bife de pensão, eu e o Juvenal estávamos secos para matar umas bolas, mostrar o jogo mesmo. Aí que é hora de apostar alto. E aquele bando de homem trouxa, que passou três horas sambando na tua cara, acha que vai ganhar de novo e aposta a grana alta. Eu tenho certeza de que esses homens também dão nome ao próprio pau, porque todos têm cara de quem bebeu Nescau na mamadeira.
Então começamos, eu e o Juvenal. Acho que nem deviam permitir que sinuca fosse esporte, porque se eu quiser ganho todas. Comecei de cara matando a vermelhinha. Ouvi o barulhinho gostoso dela deslizando para dentro do buraco e pensei:
- Agora que fiz um ponto esse otário não joga mais.
A amarelinha me sorriu, mas eu tinha uma tacada extra porque matei a da vez. Então fui na marronzinha. Soltei o braço no Juvenal, porque ela estava longe. Antes que a branquinha encostasse nela, senti que ela cairia. E caiu. Juvenal também sorriu. Olhei de rabo de olho para o sujeito do outro lado da mesa.
- Cadê o sorriso agora, idiota?
Pensei. Mas fiz cara de surpreso com minha própria sorte, porque se ele percebe que era truque o tempo todo, sairia briga. Homem bobo não sabe perder.
- Concentra.
Pensei olhando para a amarelinha. Agora ela morria. Dei na cara dela, deslizou de lado, meio torta, caiu. Era o jogo perfeito. Tinha o que? Sete pontos já? Molezinha.
A verde caía fácil agora, mas a azul dava cinco e eu estava com a macaca. Tinha que ser de casquinha. Jogada perigosa. Juntei os calcanhares, segurei Juvenal com a mão direita pela extremidade do cabo, mão esquerda pertinho da branca para a mira sair perfeita. Eu estava assim, com as costas arqueadas, debruçado na mesa, prestes a soltar o braço no Juvenal. Eis que Maria Helena entra na Sinuca do Batata.
Juvenal espirra, fazendo aquele barulho tenebroso de fiasco. Azulzinha mal se mexe, mas a branquinha suicida. O idiotinha do Nescau respira aliviado. Na hora me lembrei do que me fez sumir da Sinuca do Batata. Maria Helena morava no Santo Amaro, ali pertinho. Ela veio andando para a minha mesa e eu rezando:
- Deus, seu sacana, tudo bem que eu pedi pra ela voltar, mas tinha que ser hoje? Tinha que ser agora? Faz passar direto, pelo amor...!
Maria Helena chega do meu lado e diz, com aquela boca que eu amo tanto quanto a sinuca:
- Bom te ver, Diolindo. Eu tava com saudade. Já não liga mais pra mim...
Olhei bem na cara do homem que sairia dali levando meu dinheiro. Ele devia chamar o próprio pau de Lincoln, Bráulio, Júnior, Joaquim, Jairzinho, sei lá.
- Filho da puta.
Pensei. Mas o que fiz foi pegar Maria Helena pelo braço e me mandar dali, repetindo pelo caminho:
- Diolindo, você já é um vencedor.
E dane-se o aluguel desse mês.

26.6.12

Domingos de Cocaína

A Creuza vive dizendo:
- Você não pode cheirar cocaína assim!
A Creuza e a sociedade. Mas eu só argumento com a Creuza, porque é ela quem lava as minhas cuecas, não a sociedade. Lava minhas roupas, passa, faz comida e dá um jeitinho na casa. E por cinqüenta contos por semana, dá pra acreditar? É menos do que gasto em cocaína, pra falar a verdade. Então eu respondo:
- Mas é tão cheirosinha, Creuza!
Ela responde com berros que eu não consigo identificar. Creuza já é uma senhora. Nunca vi propósito em esconder dela. Não paga as minhas contas, nem nada! Pelo contrário. Deixo tudo espalhado em cima da mesa e peço pra ela não mexer (como faço com pornografia). E ela não mexe. Aspirador de pó, aqui em casa, não entra. Mas ela se preocupa comigo. Faz ameaça e tudo:
- Eu vou descobrir o telefone da sua mãe, vou ligar pra ela vir aqui ver se dá um jeito em você.
Creuza é boazinha. Eu implico:
- Mamãe se aposentou e foi morar no Mato Grosso com um latifundiário, Creuza. Eu sou um amor perto dela, com ou sem cocaína.
Ela responde com os mesmos berros, mas eu sei que a intenção é boa. O que a Creuza não entende (nem a sociedade) é que as pessoas usam drogas por um motivo que o Ministério da Saúde nunca vai contar aos jovens: porque é bom, ué. Fosse ruim, ninguém usava. Você cheira uma ou duas carreirinhas e já fica feliz, sente-se bem de verdade, tão bem que não parece você. E daqui a pouco passa, não tem jeito. Mas quem não quer se sentir bem? O traficante, o psicanalista, o padre, eles todos vendem o mesmo produto, mas com nomes diferentes. Seria bacana ver a polícia dando dura na sacristia:
- Perdeu, santidade. É proibido vender bem-estar, você sabe disso.
Acontece que, teoricamente, a droga que os doutores e religiosos vendem não faz mal ao corpo. É, nisso eu tenho que dar o braço a torcer, a cocaína me suga. E suga todo mundo que usa. Mas é uma opção que você faz, como acender um cigarro, como abrir uma cerveja. Ao contrário das drogas que vendem na farmácia, no botequim, na igreja ou no consultório, as que vendem na boca não têm bula. Deveriam. Vou sugerir isso ao meu vapor. É um moleque gente boa. No caso do pessoal que ainda está na maconha, por exemplo, faz muita falta um manual de instrução. Porque você compra um tijolinho e ninguém te ensina a quebrar aquilo, enrolar um papel por fora, lamber a pontinha, apertar, bater, essas coisas. Já não me lembro direito.
O negócio é que tudo tem limite. Na verdade, tudo tem que ter limite. Eu não disse nada, porque fiquei sem graça, mas tem a Julieta. Ela tem vinte anos, mas a gente se conhece desde que ela tem dezessete, eu acho. Se bobear, ela cheira mais que eu. Agora. Quando era novinha era mais comedida, ficava só na maconha mesmo e não sabia prender direito. Tossia que nem uma cachorra quando batia, era até engraçado. Agora, não só cheira mais do que eu, como pensa que é mais adulta que eu. O que me fodeu foi perceber que ela, de fato, é mais adulta que eu.
Era domingo. Só por aí já deu pra notar que estava tudo errado. Julieta não dormiu aqui, tocou a campainha às onze da manhã. Foi realmente difícil levantar da cama e abrir a porta.
- Que foi, Julieta?
Ela entrou esbaforida.
- Quero falar com você, Flavinho. Te acordei?
- Não. Quer dizer, acordou. Já tomou café? Quer comer alguma coisa?
- Não. Tem uma cerveja?
Tinha. Era tudo o que tinha. A Creuza vem toda segunda-feira, quando chega o domingo já acabou toda e qualquer comida aqui de casa. Eu não sei nem ligar o fogão. Julieta abriu a latinha e sentou no sofá. Sentei ao lado dela e tentei fazer carinho nos seus cabelos, mas ela afastou minha mão:
- Eu não agüento mais, cara. Chega.
Aquilo foi um tapa na cara. Peguei a cerveja da mão dela e bebi um gole.
- Nós dois, acabou. Depois de sexta, acabou.
Sexta eu fiz besteira, sou bom nisso. Julieta soube. Não veio aqui terminar comigo no sábado porque tinha apresentação de balé da irmã dela, dá pra acreditar? A desgraçada é mesmo muito mais adulta que eu. Então ela levantou. Belas pernas. E foi embora. Sentei na minha mesinha às onze e blau. Peguei o cartão de crédito e comecei a usar. Não o uso mais pra fazer compras, mas não cancelei, mantenho só pra bater pó.
Tem um negócio sobre a cocaína que eu não contei. Apesar de não ter problema em usar a droga, você não pode deixar a droga usar você. Uma coisa é você brincar disso, ficar doido e pronto, passou. Outra é viver pra isso, usar porque está triste e porque está feliz. Eu estava nessa já tinha algum tempo. Cheirei naquele dia o que cheiraria a semana inteira, com a Julieta. Coloquei o cd do Pink Floyd no repeat e fiquei lá, sofrendo e delirando.
Não importa o quanto você cheire, o efeito uma hora passa. Isso é tudo que você precisa saber sobre cocaína: uma hora passa. Quando o efeito passa, bate o maior vazio do mundo dentro de você, mesmo que você fique bêbado. Beber só vai prorrogar as coisas. Prorrogou, mas uma hora o vazio bateu. A Julieta me largou. Era domingo. Tirei o disco do Pink quando achei que já estava chato demais. Liguei a tv e sabe quem estava lá? O Faustão e suas arrobas. O efeito foi passando. Julieta foi embora, era irreversível. Faustão e suas arrobas chamaram ao palco o maior vazio do mundo. No meio da entrevista, não tive dúvidas: peguei o Stallone na segunda gaveta do criado-mudo e dei um tiro na cabeça.
Stallone é meu revólver. Herdei do meu pai. Quando ele morreu, minha mãe foi pro Mato Grosso, levou a grana toda e deposita um bocado pra mim todo mês. Mas era mentira sobre não ter tido dúvidas. Fiquei brincando com o cão por um tempo, girava o tambor, tirava e colocava as balas, tudo pra criar coragem de nascer no mundo dos mortos, onde não há domingos, nem Faustão, nem arrobas, nem Julieta. Nem cocaína, porque nem tudo é perfeito. Apenas um vazio que não incomoda.
Girei o tambor como fazem nos filmes, coloquei pra dentro batendo na palma da mão - isso dói no ossinho! -, apontei pra testa e apertei o gatilho. Dá pra acreditar que eu não morri? Quando eu tinha treze ou catorze anos, surgiram mil espinhas na minha cara e parecia que eu tomava banho com azeite todo dia, de tanta gordura. Hoje, com quase trinta, as espinhas foram embora, mas os buraquinhos e a gordura permanecem. Nunca imaginei - nem desejei... - que isso um dia salvasse minha vida. O Stallone escorregou na gordura da minha têmpora (eu não tomei banho pra me suicidar) e o tiro até me acertou, mas não no lugar certo pra me matar. Meu corpo caiu pra frente e fiquei estendido ali no chão, pelado, cheio de coca em volta, com o Stallone na mão. A tv continuou ligada. Faustão, o incansável, permanecia:
- Ô louco, meu.
Queria ter ficado surdo, mas não rolou. Ao mesmo tempo em que não conseguia me mexer, sentia todo o meu corpo tremendo e formigando. Vi uma linha de sangue avançando pelo chão na minha frente. Pensei:
- A Creuza vai ficar puta.
E não deu outra. Dali umas horas ela abriu a porta pra trabalhar. Dei uma cópia da chave a ela, porque não suporto acordar cedo. Creuza entrou no apartamento e berrou:
- Credo em cruz, menino! Socorro! Uma ambulância!
Saiu correndo desvairada pelo corredor aqui do prédio. Dali alguns instantes volta ela e o porteiro. Eu caído no chão, pelado, só conseguia vê-los pelos sapatos. Na tv, agora, era a Ana Maria Braga. Ouvi a Creuza dizendo:
- Eu te falei, menino! Você não pode cheirar cocaína assim!
Eu quis responder:
- Tem razão, Creuza. Não aos domingos.
Mas não consegui.

14.6.12

Promoção de Dia dos Namorados

Hoje, treze de Junho, é dia de Santo Antônio, como os sinos da igrejinha em Vila Isabel fazem questão de não me deixar esquecer há anos. O mundo se divide em dois tipos de pessoa: as que casaram e as que não casaram. Ambos os tipos, por bem ou por mal, conhecem a fama de Santo Antônio, santo casamenteiro. Eu mesmo não gosto de sair na rua em treze de Junho. Vai que o santo confunde e me arruma outro casamento? Sendo assim, fiquei em casa, enriquecendo meu vasto pasto cultural, assistindo TV Globinho.
No espaço de um comercial, fui até a cozinha ferver leite para tomar chocolate quente. É um dia de ócio. Aguardando o surgimento das primeiras bolhas lácticas, acabei me perdendo nas minhas elucubrações e, quando dei por mim, estava estarrecido porque fervia o leite em uma panelinha de alumínio. Estudos apontam - eu odeio essa construção, mas eles apontam mesmo... -, que ao ser aquecido, o alumínio solta fragmentos no meio, que no caso era o meu leite quente. Então, quando eu o fosse misturar com chocolate e beber, estaria bebendo também pequenas e desagradáveis moléculas de alumínio. Você se pergunta, imagino, que diabos isso tem a ver com Santo Antônio. Acontece que estudos apontam - blergh! - que uma possível causa de Alzheimer seja excesso de moléculas de alumínio no corpo. Santo Antônio é celebrado, não por acaso, um dia depois do Dia dos Namorados. Assim, como venho fervendo leite nessa panelinha há anos, melhor que eu conte logo o que me aconteceu no Dia dos Namorados - ontem! - antes que o Alzheimer consuma minha memória e me alivie em definitivo do fardo da consciência. Eu detestaria não conseguir me lembrar dessa história para contar aos meus netos, que ainda habitam o porvir. Ou pior, contar-lhes essa história rica em detalhes, mas vestido de toga, em cima da mesa da sala e imitando uma galinha. Acredite quem quiser, mas isso tudo antes do leite ferver.
Decidi que, no Dia dos Namorados, faria uma surpresa. Eu sei, comecei mal. Para surpresas, existem dois finais possíveis: o feliz e o de verdade. Coisas como galã cantando na arquibancada do campo de futebol, com a banda marcial o acompanhando, enquanto ele altera a letra da música para encaixar o nome da amada, só funcionam em filme ruim. Mas, como minha vida é um filme ruim, resolvi arriscar. Nada de bandinha marcial, optei por algo mais intimista. Resolvi que faria um jantar surpresa, com velas e vinho, ao ar livre, em um lugar especial. Afinal, o Rio de Janeiro é uma cidade feita para amar. (Na verdade, é uma cidade feita para copular. Veneza é uma cidade feita para amar. Mas há amor na cópula. Não há, necessariamente, cópula no amor, como provam os evangélicos do Mato Grosso. Veneza que me perdoe. Os evangélicos do Mato Grosso também).
No simpático bairro do Grajaú, onde residem as melhores memórias da aurora da minha vida, minha infância querida, existe uma porção preservada de mata atlântica, cercada de prédios por todos os lados, chamada Reserva Florestal do Grajaú. Há quem more no bairro e não a conheça, porque é necessário vencer uma ladeira algo significativa para chegar até lá. No entanto, graças à ladeira e aos policiais armados que o vigiam, o local permanece um recanto intocável e remoto, perfeito para casais apaixonados cop... Hum... Amarem. Além de ser um lugar agradável, é um lugar significativo para o nosso relacionamento, uma vez que lá, ou a caminho de lá, trocamos infinitas farpas de amor tentando resolver problemas, mas com elas construímos nossa cabana. Sim, muitas farpas. Sim, muitos problemas. Mas quebrar o pau de vez em quando é bom - anotem! - e no fim sempre acaba tudo bem. Por isso, decidi que o jantar seria ali.
O primeiro problema se colocava, então. De fato, o primeiro e o segundo. Para começar, no horário do jantar, principalmente do nosso jantar - somos criaturas da madrugada, embora a vida proletária esteja reajustando o relógio biológico do meu amor -, a reserva já está fechada. Além disso, duvido que qualquer pessoa ainda esteja lendo esse relato de amor bobo, mas duvido mesmo. Quanto ao primeiro problema, pensei que cinqüenta reais e um vigia noturno resolvessem. Não resolveram. Quanto ao segundo problema, a solução foi acrescentar a palavra "promoção" ao título dessa crônica e ver se assim alguém a lê. Tive de adaptar meus planos. Em vez de um jantar dentro da Reserva, decidi que faria um jantar no largo que fica à sua entrada. Não há vida inteligente em volta, apenas árvores e casas de gente rica. Perfeito.
Agora, era hora de escolher um cardápio. Isso, realmente, não é fácil. Meu amor não come carne. Não come queijo branco ou pastoso. Feijão, só o caldinho. Nada com canela. Nada com baunilha. Leite apenas desnatado. Grão de bico sem casca. Pão francês, só clarinho. Vou parar por aqui para que caiba em apenas um parágrafo, mas a lista é extensa. Em suma, não há nada que eu mesmo seja capaz de preparar em condições normais e que meu amor seja capaz de comer em condições normais. Mas, como dei início aos preparativos com bastante antecedência, tive tempo de esperar as condições climáticas favoráveis para preparar a única salada que ela come. Trata-se de folhas fatiadas em tiras proporcionais aos números da seqüência de Fibonacci, frutos plantados e colhidos por freiras cegas de um convento no Tibete, tudo temperado com azeite extraído de oliveiras orvalhadas pelas noites do outono europeu e com sal das praias de Cabo Frio, proporcionando um equilíbrio perfeito entre o besta e o suburbano. Meu amor é assim! Para acompanhar a salada, paguei pelo baguette - atenção, baguette! - mais caro do mundo na pior padaria da cidade: Pão e Cia. Vou deixar o endereço aqui para que ninguém a visite nem por engano. Meu ódio contra essa padaria tem duas motivações óbvias: eles não vendem sonho e não colocam conservantes nos seus produtos. Ora, nós já superamos os anos 70 e a célebre frase de John Lennon - "o sonho acabou" -, toda a padaria tem a obrigação moral de vender sonhos. São os sonhos que alimentam a infância. Quanto aos conservantes, todas as padarias do mundo colocam conservantes em seus produtos por um motivo: eles conservam. Mas não na Pão & Cia! A única padaria do mundo em que você já compra o pão duro. E paga mais por isso. Mas o que a gente não faz por amor, não é mesmo? Paguei pela porra do baguette - atenção, baguette! - de lá mesmo...
Havia, então, cardápio e lugar. Velas e vinho nas Lojas Americanas, tudo perfeito. Faltava transformar o jantar em surpresa. Para tanto, combinei com minha passarinha que, uma vez que o Dia dos Namorados cairia em uma terça-feira e ambos estaríamos exaustos do trabalho e sem saco para enfrentar qualquer tipo de fila, apenas passearíamos pelas ruas do Grajaú, de mãos dadas, como eternos namorados que somos. Até que, uma vez na reserva, ela se depararia com a mesa posta para o jantar. Eis que surge, então, o mais grave dos problemas. Para dar de cara com uma mesa posta para o jantar, eu teria, primeiro, de ir até lá e colocar a mesa para o jantar. A mesa ficaria abandonada à sua sorte, até que eu voltasse, trazendo nos braços o meu amor. O Rio de Janeiro é uma cidade feita para amar, mas também para traficar, roubar, extorquir... Enfim, não ficaria tranqüilo em deixar a mesa à sorte de sua sorte. Mas eis que a sorte me sorriu. Tudo em seu tempo.
Moro em Laranjeiras, mas finjam que eu nunca escrevi isso, porque estou super sem tempo para ser seqüestrado esse mês. Normalmente, em vinte minutos ou meia hora chego ao Grajaú. Mas não no Dia dos Namorados! Levei quase três horas para completar esse trajeto simples, em especial porque tive de passar pelo Mergulhão. Para quem não é do Rio, mergulhão é o apelido de um buraco que o prefeito fez para passarmos por baixo da Praça XV. E eu lá, preso no trânsito, elaborando torturas que contemplassem todos os buracos do prefeito... Mas cheguei, um dia, ainda que com muito atraso. Até então, a questão do abandono da mesa ainda se fazia distante, mas uma vez na frente da Reserva, ela se colocou em definitivo. Não havia vivalma ao redor, ninguém para quem eu pudesse rogar que zelasse pelo bem-estar da mesa de jantar, enquanto eu buscava minha passarinha. Ou melhor (ou pior): havia! Um grupo de jovens fumava maconha sob a cumplicidade da mata fechada. Respirei fundo, mais para não ficar doidão do que para pegar coragem:
- Boa noite, meninos.
Eram dois rapazes e uma moça.
- E aí...
Ela disse. Meu amor, perdendo um pouco do seu encanto de sempre, esbravejava exprobrações no celular a despeito do meu atraso. Mas mantive o foco:
- Então, gente. É dia dos namorados.
- Isso aí, velho...
Foi o rapaz de barba quem falou.
- Vocês vão ficar por aqui... Matando o tempo... Por mais algum tempo?
Estava prestes a dizer "fumando maconha", mas não quis parecer ofensivo, por mais que eles realmente estivessem fumando maconha.
- Pô, vamos apertar só mais um. Tá a fim?
- Eu adoraria, mas tenho hora.
Menti e emendei:
- Mas seria eternamente grato se vocês puderem ficar de olho nessa mesa. Enquanto falava, fui abrindo a mesa de boteco, forrando com a toalha, colocando a salada, o baguette - atenção, baguette - e todo o resto. Os canabistas entenderam de imediato (no tempo deles) e se compadeceram do gesto:
- Pô, velho, a gente fica de olho sim, sem nóia. Tô doidão pra ver a reação da tua mina, brother. Ela vai surtar, cara.
- Não, você tá doidão de outra coisa.
Senti-me na obrigação de responder. Acabei despertando empatia com isso, suscitando sorrisos e, talvez pela marola, tenhamos ficado amigos tão facilmente. Combinamos que, quando eu estivesse quase chegando com meu amor nos braços, sofreria de uma crise de tosse falsa. Era o sinal para que eles acendessem as velas. E assim foi.
Corri para a residência da minha passarinha, que me recebeu com a ira de um pterodátilo. Mas me recebeu. Pouco ofendeu minha santa mãezinha enquanto nos dirigíamos à reserva, mas quem ama perdoa. E como eu amo! Acho, inclusive, que ela também - mas só depois que viu a mesa posta. Fomos recebidos com ovação pela turma do THC, que veio em minha defesa ao ver a cara de brava com que meu amor censurava minha existência. Devo dizer, ela fica linda quando brava! Mas logo as nuvens do seu olhar se dissiparam e eu vi o sol na noite do Grajaú.
Garanti, assim, não só a história para contar, mas também os netos para a ouvir. E a Santo Antônio, poupei o yoga. Mas eis que o leite ferve.

27.5.12

Pretensão


Sou da terra
Sua ausência me fasfalta.

1.5.12

... Beijo

A verdade é que sempre fomos dois idiotas. Felizes, mas idiotas. Indiscutivelmente idiotas. Sempre tínhamos péssimas idéias, mas elas sempre nos pareciam razoáveis, porque tínhamos um ao outro e, no fundo, é o que importa. O resto da vida é poeirinha debaixo do tapete da sala.
Aquele dia na estrada, quando você me beijou - vou usar a palavra beijo na falta de uma palavra melhor, uma que expresse amor e erotismo, mas que preserve a moral sobre o seu jazigo -, era outra dessas nossas idéias típicas... E depois daquele... Beijo - Antonioni que nos perdoe -, a vida inteira passou a ser poeirinha debaixo do tapete da sala. Você está aí, mais linda do que nunca, maquiada e eternamente vestida para festa, enquanto os vermes permitirem. Eu estou cá, condenado a carregar para sempre as cicatrizes deixadas pela sua ausência.
Sua mãe, coitada, envelheceu dez dos vinte anos que ainda devia ter pela frente. Está naquela de manter seu quarto preservado, intocado, como se um dia você pudesse resolver voltar para casa e quisesse terminar de ler o Saramago que deixou em cima da mesa do computador. Sim, ele ainda está lá, empoeirando como tudo no seu santuário. Como eu. Sua tia enlouqueceu de vez. Ela sempre foi uma velha maluca, esperando a oportunidade certa para ser louca. Pois bem, agora deu para tricotar sapatinhos para os filhos que não teremos. Já minha mãe, enfim te ama.
Foram três semanas ruins, se quer saber. Mas aos poucos as pessoas voltarão para suas vidas, para o que há por cima do tapete da sala. Menos eu, condenado a acariciar as cicatrizes quando a saudade aperta. Desejando estar morto, para poder entregar pessoalmente essa infinidade de cartas. É que estou sem grana para o correio e outros problemas que não são mais seus. A sala aqui de casa não tem tapete, não sei se você lembra.

24.4.12

Temporal

Quando Marcelinho resolveu que entraria para a graduação em Meteorologia, todos torceram o nariz. Não só porque era uma profissão ainda recente e não estabelecida no país, mas também porque os meteorologistas erravam todas naquela época. E também nesta.
Mas Marcelinho seguiu em frente e graduou-se, sendo promovido, então, a Marcelo. Um nome que, particularmente, nunca gostou.
- Marcelo é um nome que escorre da boca. Presta atenção: Marcelo... Marceelo... Marceeelo... Prefiro Marcelinho mesmo. Escorre menos.
Mas seu escorregadio título mostrou-se provisório quando, uma vez graduado, foi contratado por uma companhia estrangeira. O povo dizia que Marcelinho errava tanto aqui, que resolveram mandar ele lá para longe. Pelo contrário, Marcelo Silva foi promovido a monsieur Silva - Messiê Silvá, eles diziam - lá na França, para mentir sobre o tempo, agora, aos franceses.
Marcelinho ficou chique da noite para o dia. De repente, todas as meninas de Bento Ribeiro descobriram que eram apaixonadas por ele desde a infância. Fenômeno meteorológico mundial, aliás, que se repetiu também no velho continente.
- Soube do Marcelinho?
Outro dia perguntaram no botequim.
- Que tem ele?
- Se deu bem, rapaz. Menino estudioso também.
- O Marcelinho? Era meio maluco. Caçava lagartixa no quintal da minha avó pra brincar de cirurgião quando era criança. Cirurgião de lagartixa! Estudioso nada, o Marcelinho era meio maluco, isso sim. Mas o que tem ele?
- Você tá por fora. Com esse negócio de meteorologista ele largou as lagartixas. Tá lá na Europa, na França. Ganhando uma nota preta. Arrumou até uma francesa pra ele. Lourinha, precisa ver só. Mandou foto esses dias. Ela tá grávida. O Marcelinho tá todo bobo.
- Tá todo bobo ele?
- Tá.
- Ele é bobo, isso sim. O Marcelinho caiu foi num golpe.
- Golpe?
- Golpe.
- Como golpe?
A Sociologia de Botequim não tem limites.
- Imagina um gringo que vem trabalhar aqui no Brasil, um gringo cheio da nota.
- Tô imaginando.
- Imagina que uma mulata se enrabicha com o gringo e apanha barriga logo, logo.
- Tô imaginando. Malandra.
- Foi justamente o que aconteceu com o Marcelinho!
- Mas ele arrumou uma lourinha!
- Mas tu é burro que nem ele, hein. Na França as mulatas são lourinhas, rapaz!
Messiê Silvá prevê, como ninguém, o tempo na França. Mas o tempo de Messiê Silvá está previsto em Bento Ribeiro.

***
Muito obrigado a quem compareceu, retuitou, compartilhou e indicou o lançamento do livro. Deu tudo certo! Quem não pôde ir pode adquiri-lo aqui, ou me mandando e-mail. Três contos do livro se classificaram para o concurso literário da Câmara Municipal de Caçapava do Sul. Por isso, agora em Maio estarei na Feira de Livro do Rio Grande do Sul (essa que o Gabriel, o Pensador, cobrou 170 mil reais pra participar), e dia 10 recebo na Câmara minha menção honrosa. Aliás, nossa, leitor! =)

25.3.12

Concurso Escritor de Verão & Lançamento do Próximo Livro

Odeio propaganda. Inclusive - e talvez principalmente - autopropaganda, auto-propaganda, auto propaganda... Sei lá, desaprendi a escrever depois da reforma ortográfica.

Mas se faz necessário. Então, vou usar esse post para fazer DOIS jabás ao mesmo tempo, poupando assim a paciência de vocês.

Em primeiro lugar e mais importante: Lançamento do meu segundo livro, Meus Textículos. São cinquenta contos curtinhos, todos sobre o mesmo personagem sem nome. No fim das contas é um romance disfarçado. Mas os contos não estão conectados, podem ser lidos em qualquer ordem e mesmo ignorados.


O lançamento é em 14/4, no Espaço Multifoco: Mem de Sá, 126 Lapa. Às 18h, conforme diz aí em cima. E também aí embaixo:


Mas eu prometi dois jabás, não apenas um! O segundo jabá é do Concurso Escritor de Verão. O texto "O Último Adeus de Regininha", publicado originalmente aqui no blog, foi selecionado e depende do seu voto. Clichê, né? É que o prêmio desse concurso literário, entre outras coisas, inclui uma entrevista bacana, coisa boa para divulgar o livro e não encher mais o saco de vocês com isso! Para votar, basta clicar no link aqui embaixo. Retuitar e compartilhar é um baita favorzão também.


É isso! Perdão pelas propagandas, mas foi necessário. 2012 começou bem, agradeço a quem tem visitado o blog, o Obvious e o Letras.

Nos vemos dia 14!

P.S.: Sei que prometi dois jabás, não três. Mas o Notas de Um Velho Sem Câncer, crônica publicada originalmente no Obvious, também foi publicada no Podler e está no páreo para ser a melhor crônica do mês. Quem quiser votar, aqui está o link para todas as crônicas. Basta clicar nas (cinco!) estrelinhas. Esse jabá foi mais discreto porque o texto já está mega bem cotado por lá, mas vale a pena conferir.

10.2.12

O Último Adeus de Regininha

Nunca transei drogas. A Mariazinha dizia que é porque eu já sou doido careta, imagina drogado. A verdade é que nunca bateu. Fumar só me dá dor de cabeça, nenhuma viagenzinha. Por isso não fumo. Nada contra quem fuma, cheira, ingere, passa no cabelo, enfia no cu... Cada um na sua, cada um no seu.
Acontece que a Regininha fuma. Tudo bem, nada contra, como eu disse. É até mais saudável do que cheirar ou enfiar no cu. Sendo que ela usa muito pouco, uma vez por semana, se tanto. É nosso brinquedinho sexual. Ela fuma um e depois viaja na nossa transa. Mas nem sempre, porque senão eu me sinto um lixo. Sinto que ela não me curte tanto quanto curte a droga. Então é necessário transar careta às vezes, para manter o moral.
Quando ela acende os dela, sempre me pergunta:
- Não quer?
Não quero. Não adianta, continuo (continuaria) sem achar graça do que não tem graça. Mas fico meio feliz com isso. Só que tem uma coisa que eu não disse: eu amo a Regininha. Tanto que nem a chamo de Regininha. Só chamo a Regininha de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos. Mesmo que ela se chamasse Márcia, ou Andréia, só a chamaria de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos.
Ela não é daqui, porque gente legal nunca é daqui. Ela é de algum lugar escroto, mas que a gente acha legal porque ela é de lá. Só que ela está aqui, o que é muito bom.
- Mas eu tenho que ir lá pegar umas coisas.
Ela disse. Fiquei tenso, então. Eu amo a Regininha, acho que a Regininha me ama. Não curto ela viajando no verão para lugares que não são aqui. Mas não havia jeito, segundo ela.
- Eu volto. Eu não vim?
Grande merda. A gente foi vivendo assim, até que chegou o dia de ir embora. Preparei uma surpresa. Surpresa ilícita, porque surpresa boa é surpresa ilícita. Enrolei um baseado no capricho, generoso na quantidade e na qualidade da planta. Sei enrolar baseado porque namorei a Jussara, que fumava que nem um jamaicano às quatro e vinte. Ela me ensinou a enrolar quando a maquininha quebrou. (Jussara tinha uma porra de uma maquininha de enrolar baseado, dá para acreditar?).
Então Regininha chegou. Veio para uma transa de despedida, por mais que dissesse que não era uma despedida, era apenas um final de semana afastado e tal... Mostrei a ela o baseado imperial que eu havia preparado e os olhinhos dela brilharam:
- Hoje você vai fumar comigo?
- Não. Hoje é careta. Você também não vai fumar, para se lembrar de cada detalhe. Enrolei esse pra fumar contigo, mas só na volta.
Coloquei o baseadão em uma caixinha e a fechei. Regininha ficou louquinha. Nem havia ido e já estava ansiosa para voltar e fumar o baseado-rei comigo. Então a gente transou uma transa muito louca, louquinha como a Regininha. Melhor, inclusive, do que as transas que a gente transava drogado. Porque eu não fumo, mas tenho que admitir que fumada a Regininha transa melhor.
A gente começou na cama e rolou para o chão. E rolou para debaixo da cama. E ficamos naquele frenético sobe e desce, dando com as costas no estrado e fazendo um barulho da porra, como se estivéssemos fazendo tudo pela última vez, como se no dia seguinte ela estivesse se mudando para Auschwitz. Suando como porcos apaixonados e bufando como bezerros famintos. Mordendo que nem jacaré com fome e beijando que nem tamanduá na formiga. Altos bichos. Até a extinção. Ficamos caídos no carpete, por cima de uma poça de suor e sabe-se lá mais o que. O melhor tempero é a fome, o melhor lubrificante é o amor.
Regininha levantou, tentou andar e caiu no chão. Perninhas finas e bambas. Dormimos como estávamos, no carpete. Dissemos nosso último adeus em sonho.
Não sei quantas horas depois, acordamos para uma ducha. Roupas.
- Tchau.
Ela disse na porta. Insisti:
- Você volta?
Eu amo a Regininha.
- Claro que volto, seu bobo.
- Na volta, já sabe.
Juntei o polegar e aquele outro dedo que a gente usa bastante e os levei a boca, fazendo mímica de fumar. Ela riu, beijou meus dedos e minha boca. Fechei a porta atrás de sua silhueta perfeita. Espiei pelo olho mágico, como de costume. Ela acenava com uma mão e mandava infinitos beijos com a outra, até entrar no elevador.
Então mofamos. Eu no sofá, ele na caixinha. Maconha e amor, se não guardar na geladeira, dá mofo mesmo.

5.2.12

Papel Passado

Nas tuas fotografias, sempre tão linda, odeio pensar na câmera, capturada em uma armadilha através do espelho. A presença dela me faz lembrar que naquela fração de segundo em que o obturador esteve aberto, você não esteve minha. Queria ser eu o eterno prisioneiro do espelho. Não a câmera.

31.1.12

Frustração

Não há novidades após os dez anos de idade. A Medicina pode nos obrigar a viver até os duzentos anos, mas nunca será capaz de promover sentimentos inéditos. Todas as emoções que sentimos ao longo da vida são variações dos sentimentos experimentados na infância. Por isso, é imprescindível evitar o sofrimento das crianças. Os próprios relacionamentos amorosos, cujos inevitáveis fracassos nos perseguem até o túmulo, nada mais são do que uma sofisticação do abandono inevitável que acompanha o crescimento.
Lembro quando inauguraram a loja de sanduíches de miga em Vila Isabel. Foi uma sensação, principalmente para quem não fazia idéia do que era miga. Todos comentavam sobre a delícia que era o sanduíche argentino e a beleza que era lojinha. Chamava-se La Fabrica. Chama-se, aliás. Está lá na 28 de Setembro até hoje.
Assim, foi com crescente expectativa que fui ao aniversário daquela menina. Nem lembro o nome dela, mas lembro que havia a promessa de sanduíches argentinos. Eles vinham em múltiplos de doze, em caixas brancas e rosas. Salivava de curiosidade quando me debrucei sobre a caixa pela primeira vez na vida. Enfim, conheceria os tais sanduíches argentinos.
Então, descobri que na argentina o sanduíche é com um pão de forma amassado sem vergonha, queijo e presunto. Pastinha de azeitona, quiçá. Passaram-se muitos anos. A cada nova frustração, o mesmo gosto de sanduíches de miga.

24.1.12

Cenouras

- Você é destra ou canhota? Então, segura a cenoura com a mão direita e põe a mão esquerda em cima do ralador. Segura firme na cenoura, pega entre o meio dela e o topo. Também não precisa apertar, é só segurar firme. Agora fica aí, pra cima e pra baixo. Não faz com pressa pra não se cortar, mas também não faz devagar porque senão não vai ralar.
Tinha doze anos quando mamãe me disse essas sábias palavras. Dali em diante, passei a enfeitar minhas saladas de folhas também com cenoura ralada. Experimentei variações, com ralo grosso e ralo fino. Depois, notei que pepino e outras coisas poderiam ir ao ralador também e fui sofisticando as saladas cada vez mais.
Passaram-se, então, muitos anos. Casei e só bem depois tive a Marieta. Mamãe faleceu. Marieta cresceu. Arnaldo enfartou, mas não morreu. Marieta cresceu mais. O Brasil foi eliminado da Copa de noventa. Marieta começou a crescer de um jeito diferente, na cintura. Tenho certeza de que ela acha que não notamos. Arnaldo realmente não notou, mas eu... Eu sou mãe. Então, quando ela sentou aqui na namoradeira da sala para dizer que queria conversar comigo, já sabia bem do que se tratava. Fiz minha cara de cínica (mamãe que me ensinou também):
- Que foi, minha filha?
- Estou grávida.
Ela disse. E começou a chorar. A maternidade é a coisa mais linda do mundo. Só quem é mãe sabe disso. Não há fenômenos natural, social, físico, químico ou econômico que se compare com a maravilha que é gerar um ser dentro de um ser. Ainda assim, minha vontade naquele instante foi de dar com a cabeça da Marieta no console da sala. Em vez disso:
- Marieta, minha filha... Mas como você foi...
Abracei a coitadinha da idiota da minha filha. Só quem é avó sabe como é.
- Quem é o pai, minha filha?
Ela, então, recompôs-se rapidamente.
- Claro que é o Ricardo!
Respondeu como que ofendida. Menos mal, ao menos ela tinha caráter. Namorava Ricardo e apenas ele há quase dois anos.  Duas crianças. Duas crianças boas, excelentes, mas duas crianças. O pai do Ricardo tem uma padaria, Arnaldo é funcionário público. De fome a criança não morre. Claro que eu ajudaria a cuidar enquanto os pais endireitavam a vida, buscando os próprios caminhos, mas ainda assim tínhamos um problema enorme nas mãos. No caso de Marieta, um problema de três quilos no ventre.
- Você já contou pra ele?
- Não.
Chorou mais. Choraria ainda mais quando fosse a hora de contar para o pai. Homem é bobo, sempre acha que as mulheres da própria família não fazem sexo. Pois saibam, nós fazemos, ou no mínimo fizemos. Marieta ainda faz.
- Você não sabe que tem que usar camisinha, minha filha?
Estava inconsolável, não conseguiu me responder, mas eu sabia que ela sabia. Não era hora de discursar sobre métodos anticoncepcionais. Havia um bebê ali e a preocupação deveria ser com ele. Expliquei-lhe que, por mais inconseqüente que tivesse sido sua atitude, aquele bebê deveria ser muito querido, agora que viria a ser uma realidade nas nossas vidas. Enxuguei as lágrimas do seu rosto, um rosto lindo, rosto de criança. Expliquei que gravidez é saúde, não havia porque chorar. Não adiantava chorar. Era questão de pensar no futuro dali em diante. O futuro começaria naquela noite, quando Arnaldo chegasse do trabalho. Ela não queria dar a notícia, evidentemente. Morria de medo da reação do pai. Assumi as rédeas da situação e soltei a notícia sem rodeios, como deve ser:
- Marieta está grávida.
Fiz questão de que ela estivesse presente, para aprender através do meu exemplo como se deve ser mãe, mediando conflitos irremediáveis. Arnaldo tentou voar em seu pescoço, mas interrompi seu showzinho:
- Pode parar de palhaçada. Já conversei com ela, foi um acidente. Agora a gente precisa pensar em como vai ser a vida desse bebê. É seu neto.
Ele deu alguns berros, mas não passou disso. Uma tempestade nos copos da nossa cristaleira. No dia seguinte, fomos à casa de Ricardo ter uma conversa franca com a família inteira reunida. Eles escutaram com surpresa. Olharam feio para Ricardo, mas não ousaram levantar a voz para Marieta. Ao contrário, estavam dispostos a aceitar aquela situação como adultos esclarecidos. Ronaldo, pai do Ricardo, ficou de colocar o menino para trabalhar na padaria, coisa que já devia ter feito há muito tempo. Lembrei-me, aliás, que na família do Ricardo eles têm essa mania de nome com R. Experimentei certa peninha do meu neto.
Fomos tratar, então, do pré-natal, que não durou quatro meses. A implantação do feto foi ectópica, uma gravidez complicadíssima. Inicialmente, sofremos todos porque ali havia uma criança. Depois, sofremos todos porque ali não havia mais uma criança. Perder um filho é muito mais difícil do que ter um filho. Chorei por duas semanas, todas as noites, depois que todos já dormiam. Não só pelo meu neto, mas também por Marieta. Não ser mãe também é padecer, só que fora do paraíso.
Ricardo e Marieta chegaram a terminar o namoro. Juravam de pés juntos que não tinha a ver com o bebê, mas tinha. Sempre tem. Com o tempo, reconciliaram-se e a vida foi voltando ao normal aos poucos.
Um dia, estava na cozinha preparando o almoço e me ocorreu de gritar à Marieta, que prontamente correu até a cozinha.
- Filha, eu tava pensando aqui, como você engravidou? Vocês não usavam camisinha?
Marieta fez uma careta, não esperava esse assunto. Andou em círculos na cozinha, até que disse:
- A gente tava sem no dia. Não sabia o que fazer.
Soltei um suspiro longo. Estendi-lhe uma vasilha:
- Já te ensinei a ralar cenouras?

15.1.12

Monóico

O mundo procura uma alternativa sustentável para o capitalismo há não sei quantos anos e não desconfia de que essa alternativa está aqui no quarto, despretensiosamente largada em cima da minha cama. Agora nossa cama. A única alternativa possível ao capitalismo é nosso cobertor. Uma mantinha azul e felpuda capaz de derrubar muros, fronteiras, cadeados e preconceitos. Debaixo dela, um território realmente neutro e laico, onde não existem posses. Em suas fronteiras, tudo está sujeito a uma constituição própria que abole em cláusula pétrea todo e qualquer pronome possessivo. Lá debaixo, aqui debaixo, não existe meu braço, suas pernas, suas coxas, minhas costas, é tudo nosso e ao mesmo tempo de ninguém.

O pau, que a vida inteira chamei de meu, deixa de me pertencer. Quando entra no seu corpo, que também não é mais seu, não me permite saber quem é que tá comendo quem. Sinceramente, não me importa. Não nos importa. Sem posse não há gênero, número ou grau. Debaixo dessa manta não há política, gramática, aritmética ou filosofia. Lá debaixo, aqui debaixo, somos um único ser. Um monstro monóico.

4.1.12

Óculos

Gosto da maneira como você arranca meus óculos com as mãos e minha roupa com a mente. Então, abre a maior boca que o mundo já viu e me come, me mastiga e me engole. E me vomita para me comer de novo. E me vomita. Com esforço me refaço e recoloco os óculos. Mas diante das minhas lentes não é o mundo que se descortina e sim suas impressões digitais. Melhor que ver o mundo.